Os sábados precisam voltar a ser sábados
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Os sábados precisam voltar a ser sábados

Luiz Henrique Matos

29 Dezembro 2017 | 17h56

“A gente vive muito em voz alta e às vezes não se ouve.”
-Guimarães Rosa

Foi meu aniversário no último dia dois. Era um sábado e a sensação de acordar com café da manhã na cama e cercado pelas meninas em festa é a melhor possível. Depois, encarar um dia inteiro com a única obrigação de pensar na próxima coisa boa a fazer. Esse é sempre o maior presente, mas que não é possível quando o aniversário cai em dia útil.

Logo cedo, a Nina me disse para fazer três pedidos ao longo do dia. Três coisas que estivessem ao alcance dela para realizar. Eu sabia que era mais para alegrá-la do que a mim, então entrei na onda. Almoçar juntos em um restaurante que gostamos com direito a sorvete na sobremesa foi o primeiro deles.

O segundo foi ir até nossa livraria favorita e ficar à toa folheando livros, passeando entre as prateleiras, correndo atrás da Cecília que insiste em fugir pelos corredores, separando cinco ou seis exemplares para ler um trecho enquanto bebia um café, até decidir por um deles, que seria o meu presente (escolhi ganhar a mais recente edição dupla de Dom Quixote, que me acompanha nesse minuto).

Já era finzinho de tarde quando, por um motivo que me escapa agora, Nina e Cecília se desentenderam. Sem saber como mudar o clima, lancei mão do meu terceiro direito e pedi a elas que deixassem de lado divergências bobas para desfrutar o dia. “Mas, pai…” alguém já dizia quando eu devolvi: “Esse é meu terceiro desejo. Vocês precisam atender”.

Não foi preciso muito esforço para me dar conta de que nada do que poderia e gostaria de ganhar era tão excepcional a ponto de minhas filhas não poderem me proporcionar. Mais do que isso, nada do que fez daquele dia tão especial não podia facilmente acontecer todas as semanas aqui em casa. O ócio voluntário, a despretensão de um dia sem tarefas ou obrigações, a presença de gente querida. Isso, eu acho, deveria ser incorporado à doutrina religiosa de todo homem.

* * *

Há um livrinho com quatro ensaios escritos pelo médico e escritor Oliver Sacks para o The New York Times em 2015 nos meses que precederam sua morte. Diagnosticado com uma forma rara de melanoma dez anos antes, ele soube então que a doença havia atingido o fígado e lhe sobravam poucos meses de vida. Os textos tratam sobre sua condição frente ao inevitável. No último ensaio, chamado Shabat, ele cita seu primo Robert John Aumann, ganhador do prêmio Nobel de matemática, e comenta sobre uma de suas práticas religiosas mais caras:

“A observância do Shabat é belíssima”, disse ele, “e é impossível quando não se é religioso. Não é nem mesmo uma questão de melhorar a sociedade. É uma questão de melhorar a sua própria qualidade de vida”. O Shabat, descreveu Sacks mais a frente, relatando a descoberta tardia do hábito religioso que abandonara ainda na adolescência, é carregado “com a paz de um mundo parado, um tempo fora do tempo”. Sacks encarava a morte que se aproximava como seu descanso eterno, sua paz.

É curioso imaginar que judeus, muçulmanos e cristãos tem em seu livro sagrado um mandamento divino que os orienta a descansar. Há um dia na semana em que é preciso parar, livrar-se de obrigações, negar-se o esforço produtivo incessante do trabalho sob o sol para deixar que corpo e mente se renovem.

O dia do descanso é um presente de Deus para a humanidade, um lembrete de que não somos escravos do que produzimos, mas produzimos para nosso deleite e sobrevivência. É um estado de espírito. Desfrutar a criação, colher nosso plantio, viver para saber, perceber-se e contemplar o redor. O descanso é nossa desconexão com o mundo para nos ligarmos a nós mesmos e às pessoas que amamos.

Chesterton talvez tenha dito num sábado: “O homem feliz é que faz coisas inúteis; o homem doente não dispõe de força suficiente para ficar sem fazer nada”.

Naquele sábado de aniversário tive meu Shabat como há um tempão não vivia. O dia de só repousar, um dia para estarmos juntos ao redor da mesa, passear, encontrar familiares e amigos, celebrar um ciclo dessa breve existência que temos sobre a terra e, principalmente, agradecer por esse privilégio.

Já à noite, de volta à cama, banho tomado, as crianças dormindo no quarto, a Manu apagada ao meu lado, a Lucy roncando na sala, o livro novo repousando sobre o criado mudo, cruzei os braços atrás da cabeça e mirava a luz refletindo no teto do quarto enquanto uma prece me ocorria: “Tenho tudo de que preciso. Não poderia desejar mais”.

Os sábados precisam voltar a ser sábados. Para o nosso bem, como seres humanos e como sociedade. Precisamos de um descanso, uma interrupção momentânea na vida frenética e cheia de estímulos que levamos. É necessário que um dia de repouso torne-se um precioso ato religioso.

Essa época do ano é também um tempo desse tipo de pausa. Enquanto nos reunimos com as pessoas que amamos, refletimos no significado do Natal, organizamos gavetas e fazemos planos para os próximos doze meses, temos também a oportunidade de repousar por um tempo, colocar a mente em dia e refazer nossas prioridades e votos.

Votos. Os meus são de que nossos sábados sejam eternas festas de aniversário.