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Onze anos, um email e um sonho para hoje

Luiz Henrique Matos

21 Março 2018 | 22h43

Hoje a Nina faz onze anos. Todo mês de março eu caio nessa. Passo os dias todos olhando aquela menininha cantarolando pela casa até que percebo mais uma punhalada inescapável do tempo me atingindo. E ali, logo na outra esquina, já vislumbro ele de novo à espreita, dez dias depois, no aniversário da Cecília. Outro golpe. Porque cada ano que elas completam me leva a pensar quão pouco tempo faz que parece que elas nasceram e também quão rápido a vida toda tem passado desde que me lembro de quando eu tinha essa idade.

A paternidade mudou minha vida de tantos jeitos diferentes que eu me sinto em dívida com essas meninas. Porque muda nosso centro de atenção e afeto, muda a ordem e prioridade das coisas, a insegurança eterna de que elas estejam bem, estejam respirando, comendo, estejam dormindo e sorrindo e brincando em harmonia e não levando uma mordida na escola ou dando uma mordida em outra criança na escola. Ser pai, muda o horário em que vamos pra cama, muda a temperatura do prato que comemos (tudo é frio – talvez daí o fato de sushi e patê de atum sempre parecerem boas pedidas), muda a velocidade em que dirigimos e muda definitivamente a assertividade das recomendações de playlists do Spotify e vídeos do Netflix, agora eternamente povoados por desenhos animados e trilhas infantis.

E muda uma outra coisa principalmente: quando temos filhos, plantamos uma semente de esperança no mundo. Como se depositássemos uma moedinha de crédito no futuro da humanidade e que aquele engatinhar, os primeiros passinhos cambaleantes e a formação desse novo ser fosse também, numa analogia preguiçosa, um novo passo possível para cada um de nós. Filhos, eu acho, sempre serão nossos sonhos projetados.

Quando a Nina nasceu, lembro de ter recebido um email de um amigo nos parabenizando pela sua chegada. Ele começou me felicitando pela família, disse estar repartindo nossa alegria, até que seguiu a conversa dizendo que admirava nossa coragem, minha e da Manu, de colocar uma criança em um mundo desequilibrado e hostil. Eram palavras pesadas. Ainda que não fosse sua intenção, sua mensagem nos dizia basicamente que éramos um par de irresponsáveis por deixar alguém crescer como testemunha do apocalipse.

Isso foi há onze anos. Há pouco mais três meses, mandei uma mensagem para ele dando os parabéns pela chegada do seu primeiro filho, que nasceu saudável e sorridente para ajudar a povoar esse mesmo mundo ao lado de minhas filhas.

Mas, se discordei dele quanto a ter filhos, de outra coisa não posso lhe tirar a razão: o mundo anda triste mesmo. Não teria a ousadia de apontar dedos em qualquer direção, falar que é tudo culpa da internet, da polarização política ou admitir que meu mau humor se deve ao fato do meu time estar desempenhando um futebol sofrível. Fato é que, para todos nós aqui, saindo da esfera íntima (minha vida pessoal anda às mil maravilhas, confesso), os últimos meses têm sido permeados por períodos sombrios para nossa sociedade, tempo em que esperança, uma palavra de que gosto tanto, tem sido continuamente alvejada.

Na semana passada, estive na cidade de Washington a trabalho. Estava lá na quarta-feira pela manhã, ainda no quarto do hotel, quando abri o jornal no meu celular e me deparei com a notícia sobre a morte da vereadora carioca Marielle Franco e de Anderson Gomes, assassinados na noite anterior. Havia um significado doloroso naquela tragédia. O contexto, a ousadia, as condições em torno do crime tornaram o fato simbólico, indigesto e chocante.

Eu não os conhecia, admito. Tão pouco concordo com todas as bandeiras políticas e causas levantadas por Marielle. Mas não é isso que está em questão. A tristeza é perceber que nas poucas chances em que aqueles que não tem voz ou poder sentem-se finalmente representados, a repressão criminosa atropela seus anseios. Os tiros que os mataram (e os tiros que vêm matando inocentes Brasil afora) foram tiros na minha esperança também.

Aproveitei uma pequena folga que tinha na agenda de trabalho e saí para uma caminhada. Estava hospedado nas redondezas e fui conhecer o memorial erguido em homenagem a Martin Luther King Jr., um dos meus heróis particulares. É um monumento lindo, com a imponente imagem do reverendo esculpida numa rocha de nove metros de altura onde se lê a inscrição “Da montanha de desespero, uma pedra de esperança”.

Dali, caminhei até o memorial em homenagem a Abraham Lincoln. Subi a escadaria que leva até a famosa estátua do presidente sentado em um trono e, nas paredes ao lado, seu memorável discurso escrito do chão ao teto. No entanto, na contramão do principal alvo das fotografias e olhares, chamava minha atenção outra coisa: no topo da escadaria, gravado num ponto desgastado no chão, de costas para a estátua e de frente para todo o vão do National Mall que segue até o Capitólio (cerca de quatro quilômetros livres) havia uma inscrição no chão:

“I have a dream”.

Postei meus pés naquele ponto e viajei até a tarde de 28 de agosto de 1963 em que Martin Luther King, o mesmo que reverenciei minutos antes, se posicionou naquele exato lugar para fazer seu mais famoso discurso e ver suas palavras entraram para a história. Naquele dia, ele citou esse trecho que me vem à mente com frequência:

“Eu tenho um sonho que meus quatro pequenos filhos um dia viverão em uma nação onde não serão julgados pela cor da pele, mas pelo conteúdo do seu caráter. Eu tenho um sonho hoje.”

Filhos.

Onze anos depois, ainda lembro o que respondi para meu amigo naquele email. Tanto tempo passou, pude testemunhar que a paternidade se tornaria algo muito diferente do que imaginei e infinitamente melhor do que poderia pensar ser possível. Mas, minhas impressões sobre ter filhos permanecem tal como lhe escrevi:

“Meu amigo, obrigado pela sua mensagem. Estamos muito felizes com esse presente e gratos a Deus por sua bondade. E apesar de concordar com parte da ‘realidade’ sobre a qual você escreve, não acho exatamente que precisamos de coragem para continuar a viver e habitar esse mundo, mas sim de fé. Fé que nos faz fortes, esperançosos e cheios da graça divina mesmo quando estamos em meio às trevas. E é bem aí, no meio da escuridão, que temos a chance de refletir a luz que emana do nosso criador. E sonho, faço preces e trabalharei arduamente para que minha filha seja essa luz resplandecente nesse mundo em que ela vai viver. Grande abraço.”

No mundo duro em que vivemos, na noite escura que atravessamos, na incerteza pela qual passa nossa nação neste momento, mantenho minha crença. Na Nina, na Cici, em nossas crianças, as sementes que geramos e lançamos na terra com o coração cheio de esperança. A paternidade, eu acho, é também um gesto cívico.

Eles crescem em nossas casas, nós os formamos sob nossos tetos, sentados à mesa do jantar em família, correndo pela sala e cabe a nós, pais, a assustadora responsabilidade de educá-los com os valores que também nos formam. É a verdadeira missão de minha vida, eu acredito, formar duas pequenas cidadãs para formar uma sociedade mais decente e justa ao passo que me agarro aos ponteiros do tempo tentando mantê-las sob nossas asas e preservadas de qualquer risco tanto quanto possível.

A Nina adora fazer aniversário e hoje ela ganhou uma festinha surpresa. E observá-la em seus onze anos brincando com as amigas, seus traços infantis mudando aos poucos, sua pequena e doce e radiante e linda história e vê-la crescendo com um senso de justiça e moral afiados, com a bondade transbordante, o sorriso fácil e a inocência que é natural às crianças, me faz ter uma profunda fé na mulher que ela poderá se tornar um dia. E me faz ter esperança, me permite sonhar com um mundo diferente que será edificado e transformado por essa geração a que ela pertence.

Um mundo onde nossos filhos, todos eles, não serão julgados e não julgarão a ninguém pela cor de sua pele, sua origem, classe ou por suas opções pessoais, mas pelo conteúdo do seu caráter. É um bom sonho para nos manter em pé. Um bom sonho para ter hoje.