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O homem que virou carro

Luiz Henrique Matos

26 Outubro 2017 | 22h25

O homem virou carro. Foi em um fim de ano, quente como agora. O homem dirigia e dirigia, todo dia dirigia. Alguns anos antes, encarava 40 minutos de trânsito pela manhã e no fim de tarde, mas agora chegava a perder duas ou três horas diárias no trajeto entre a casa e o trabalho. “São tantas horas no carro”, pensava, “isso parece minha casa”.

Zeloso com seu habitat, investiu em bancos de couro, aparelhos multimídia, câmbio automático e ar-condicionado. Em casa, a mulher reclamava que usar a mesma geladeira desde que casaram não era dignidade.

Era tanto carro, todo dia, que viciou na relação. Nos fins de semana, ele lavava o carro, lustrava o carro, ia de carro até a padaria comprar pão, contornava até a banca para buscar o jornal. Domingo à tarde, ia para o carro escutar o jogo de futebol pelo rádio, sob pretexto de que a locução tinha mais emoção do que a da TV. “No rádio, qualquer pelada parece jogão, na TV é aquela monotonia de cobrança de lateral e toca pra lá e pra cá”, comentou certa vez com um amigo a quem deu carona, “e gol só é gol mesmo na voz do Zé Silvério”.

Naquela manhã, o trânsito estava especialmente ruim, o sol excessivamente quente e, azar dos azares, o ar-condicionado pifou. Ele saiu de casa às 7:00 e mais de duas horas depois ainda estava no Paraíso. O calor do verão fervia tudo e ele suava tanto que nem se deu conta do momento em que ele e o carro começaram a virar uma coisa só. Passada outra hora e pouco mais de um quilômetro, notou que sua perna, as costas e o banco agora eram parte de um mesmo corpo. “Acho que estou virando carro”, pensou.


Sem ter por onde escapar, dobrou a primeira esquina, pegou uma rota diferente e seguiu por uma estrada sentido interior. Nos últimos vinte anos, nunca tinha feito um trajeto diferente. Eram sempre as mesmas ruas, todo dia o mesmo trânsito. A paisagem mudou um pouco, as ruas agora tinham bicicletas, motos e mais ônibus. Mas ele sempre firmava as mãos no volante.

Dirigiu por horas à fio. Vidros abertos, motor roncando no peito, o vento no rosto e cada vez mais carro.

Pelo espelho retrovisor, refletia na vida. O chefe talvez reclamasse, a esposa pode ser que não, filhos eles não tinham, os amigos entenderiam. No duro, não causaria muita surpresa. Ele já tinha, diziam, um jeitão meio engarrafado, vivia por aí de sinal vermelho com aquela cara de trânsito, sem escapamento na vida.

Só voltou para casa tarde da noite, estacionou e pegou no sono por ali mesmo.

No outro dia, a mulher saia para fazer academia quando viu o carro estacionado na garagem. Chegou perto, bateu forte no vidro. Ele acordou num pulo.

– Ué, mas o que você está fazendo aí?
– Nossa, acho que cochilei.
– Por onde você andou?
– Por tanto lugar. Acho que estou virando carro.

Ela olhou pela janela e viu as pernas já cobertas com acabamento em couro, os pés conectados aos pedais e o cinto de segurança já ligado ao tronco.

– Então não vai conseguir me ajudar a subir com as compras?
– Não vai dar, Belina, desculpe.

A mulher olhou tudo aquilo de novo.

– Ao menos podia ser um Corolla. Eu sempre quis ter um Corolla.

E saiu.

O homem recobrou as ideias e bebeu um gole de água. Mas sentiu falta de ar, uma certa vertigem, o coração ia fraquejando. Era a pressão caindo. Então virou a chave, ligou o motor e a gasolina voltou a correr pelas veias.

Decidiu que ficaria o dia todo engarrafado em alguma via da cidade. Passou uma flanela no painel para tirar o excesso de pó, jogou um pouco de água no para-brisas, engatou a marcha, agarrou com os dedos a direção da vida, arrancou e partiu.

“Um dia eu viro São Paulo. Vou ocupar cada rua. A cidade toda sou eu”.