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O homem que falava juridiquês

Luiz Henrique Matos

05 Abril 2018 | 01h09

Ostentando uma camiseta regata da torcida organizada que ganhou na adolescência, Naldo passava as noites de quarta-feira plantado em frente à TV acompanhando os jogos do seu time de coração. Uma xícara cheia de amendoim apoiada no braço do sofá, a cerveja servida no copo de requeijão na mão e o controle-remoto sobre a perna. “Minha religião”, dizia para quem tentasse tirá-lo de casa nesses dias.

No trabalho, ele chegava cedo para dominar a rodinha do café com piadas, comentários e cuspir estatísticas que reforçavam as glórias de seu time no passado: “Temos mais vitórias no primeiro turno com gols de falta cobradas da intermediária do que qualquer outro time do estado fundado após 1935”, encerrava a conversa. Na hora do almoço, convencia a equipe a frequentar o bandejão da rua de trás que mantinha a TV sintonizada no programa do Milton Neves.

Mas, deu que seu time entrou numa draga danada. A má fase começou depois de uma derrota de 6 x 5 para um time do interior e já durava coisa de oito meses. O clube trocou de técnico, vendeu o centroavante e começou a frequentar a zona da degola no campeonato. Aí veio a Copa no Brasil e, na sequência do otimismo nacional, o banho gelado do 7 x 1 contra a Alemanha.

Naldo começou a chegar atrasado no escritório, inventou aula de inglês na hora do almoço, saiu do grupo de WhatsApp dos amigos da faculdade e trabalhava calado no seu canto.

Numa quarta-feira à noite, desanimado depois de um 3 x 2 que seu time tomou de virada, afundou numa fossa e no sofá. Sentado no seu cantinho, ainda de regata, o copo vazio, o controle pendurado na mão, Naldo começou a zapear os canais da TV. Depois de seriados, programas de culinária e documentários sobre o Alasca, parou na TV Justiça e ali ficou entorpecido em um julgamento de Habeas Corpus. No cantinho da tela, acompanhando o nome de um ministro dando seu voto, uma legenda indicava: “Placar: 3 x 2 contra a defesa”.

Ele, que no alto de sua erudição ginasial tinha juízes, impedimento, defesa, vantagem, corte e 11 em campo em seu vocabulário, entendeu quase metade do que se dizia na TV. Não no sentido que deveria, convenhamos, mas o suficiente para lhe prender a atenção.

É, amigo. Era noite de jogo.

Foi deitar às duas e tantas da madrugada, a cabeça girando e a alegria de um novo esporte para seguir. Naquela altura do campeonato, era ao menos mais emocionante do que os jogos do seu time.

No outro dia, Naldo pulou da cama às 6h, botou uma gravata e chegou cedo para dar expediente. No cafezinho, se aproximou da roda. O pessoal estranhou a gravata, estranhou sua presença, estranhou a expressão animada e expressou espanto:

– E aí, Naldo. E essa gravata?

Ao que ele saudou:

– Vossas excelências! Viram o julgamento ontem?

Puxou assunto. Esqueceu do futebol. Comentou o julgamento como se fosse jogo.

– Rapaz, lá pelos 45 minutos do segundo tempo, o Faquinha entrou de carrinho no Jumar. Os 11 em campo não se entendiam, mas o negócio estava pegado. O juiz foi firme. Entendi meia dúzia de coisas, mas até aí não entendo nada do que o Casagrande fala em comentário também. Aliás, só tem juiz nesse jogo, né? Mas a Rosita fez uma jogada de mestre e virou o placar no último minuto. Foi um 6 x 5 aguerrido, histórico.

Deram corda. Ninguém aguentava seu discurso de boleiro. Ao menos o rapaz tinha agora outra novela para seguir.

E determinado a entender do novo esporte, Naldo comprou um exemplar do Vade Mecum e carregava pra cima e pra baixo. Passou a assistir Law & Order na tv à noite e almoçar com o Doutorvaldir do departamento Jurídico, que sempre era visto solitário pelos corredores.

Mas foi num feriadão prolongado que surpreendeu os amigos cancelando a viagem para a chácara sob argumento de que faria uma maratona de TV Justiça. Na sexta à noite, sintonizou o canal 683 da televisão e se acomodou no seu cantinho. Uma xícara cheia de sementes de abóbora apoiada no braço do sofá, a Sidra Cereser servida numa tacinha de plástico numa mão com dedinho estendido e o controle-remoto na outra. “É minha santa constituição”, dizia para si.

Atravessou a madrugada atento aos julgamentos, passou batido o horário do café da manhã e do almoço. Lá pelas oito da noite no sábado, sob efeito do espumante, adormeceu. Assim ficou, no transe entre sono, embriaguez e medidas cautelares, até que tocou o interfone na terça-feira e despertou com o porteiro avisando que um vizinho reclamava do barulho constante da TV ligada.

– Sim, pois não, vossa excelência. Providenciarei a interrupção da mesma imediatamente.

No outro dia, pulou da cama às 6h, botou uma toga sobre o terno azul marinho e chegou cedo para dar expediente. No cafezinho, se aproximou da roda solenemente.

– Que capinha é essa aí, Naldo?

– Minha graça é Arnaldo Barreto Nepomuceno, excelência.

– Como é?!

Mas, em seguida, Senhormacedo, diretor departamental, chamou toda a equipe para uma reunião de emergência. Todos na sala, cadeiras ocupadas e o mandatário explicava o novo programa de metas e políticas da empresa.

– Os senhores tem alguma dúvida? – perguntou sem interesse, já se levantando para sair da sala.

– Meritíssimo, se me permite, gostaria de me dirigir a vossa excelência.

– Eu não sou… é, bem, diga lá Arnaldo.

– Data vênia, haja vista que vossa excelência explanou com tamanha clareza os novos processos a que estaremos todos sujeitos nessa nova ordem e fundamentou tão oportunamente seus argumentos, data vênia, abro mão da premissa para explanar meu contraponto, em que pese sua opinião, ora necessária, julgo improcedente a revisão no pacote de benefícios a que temos direito eu e meus excelentíssimos colegas ora aqui presentes. No entanto, todavia, ora compreendo que seja necessário submetermos-nos às novas regras vigentes nesta feita. Por hora, data vênia, assim, agradeço e em que pese sua opinião, ora necessária e julgo improcedente meu direito de expressão no que tange, data vênia, vosso ponto de vista.

– Pois não, Arnaldo. Mas eu diria que o senhor talvez…

– Apoiado! – gritou Cícero, o supervisor do almoxarifado, lá no fundo da sala – abaixo a opressão do sistema! Viva o Naldo!

– Apoiado! – ecoaram aqui e ali, com gritinhos, o Marcos da área de Vendas e a Rita, secretária do presidente.

E nos minutos seguintes, toda a sala se colocava em pé, apontando Naldo e sua toga como porta-voz dos seus interesses enquanto o excelentíssimo saudava seus pares com uma discrição fingida.

Daquele dia em diante, sua conversa empolada contaminou todo escritório. Nas reuniões, conversas de café, linguagem de e-mails e comunicações do escritório só se falava o juridiquês. No almoço, longos debates para discutir a constituição federal, o sistema judiciário brasileiro e o combate à impunidade. A sexta-feira casual virou a Toga Friday, o aniversário do Naldo ganhou o carinhoso apelido de Data Vênia e até o Senhormacedo acabou aderindo porque pegava bem soar democrático nesse contexto e o requinte jurídico melhorou sua pontuação na avaliação de desempenho entre os subordinados.

“Data vênia, excelência! Data vênia!”. E o Doutorvaldir, pela primeira vez na vida, declarou na pesquisa de clima que havia um senso de pertencimento pleno naquela garbosa instituição.

Certo dia, passado o almoço, um estagiário recém-contratado chegou no andar carregando uma TV nos braços. Atravessou o andar com a enorme caixa de um aparelho tela plana de 55 polegadas, foi acompanhado de olhares curiosos que se arrastaram até o rapaz que, em pouco mais de 15 minutos, pendurou o aparelho na parede ao lado da cozinha, ligou a tomada, sintonizou em algum canal e gritou:

– Vai começar!

– O julgamento!? – perguntou Doutorvaldir – o que tem na pauta do STF hoje, caríssimo Arnaldo Barreto Nepomuceno?

Ao que o estagiário interrompeu:

– Não, doutor. Julgamento, não. Hoje o Brasil estreia na Copa do Mundo.

Um minuto ou dois de silêncio, as pessoas se entreolharam contrariadas. Copa do Mundo este ano? Mas e o debate? E o plenário? E o colegiado, o futuro do país, será que poderiam…

– Apoiado! – bradou o Cícero enquanto saía do banheiro – abaixo a opressão judiciária nessa corte. Viva o futebol arte, nossa paixão nacional!

– Vai, Brasil! – ecoaram Marcos e Rita, sentindo-se bastante patriotas.

Em dois minutos, foram para a gaveta as togas, gravatas, o juridiquês e o senso de justiça que dominava os sisudos debates do almoço. Naldo tirou a bandeira do Brasil do mastro e pendurou nas costas. O departamento todo se colocou em pé, a mão direita no peito, a esquerda já cheia de amendoins e se pôs a cantar o hino nacional enquanto a Seleção entrava em campo.

“Nossa religião”, pensou Naldo orgulhoso.