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O guarda-roupa da minha avó

Luiz Henrique Matos

19 Outubro 2017 | 07h59

Minha avó guardava a televisão dentro do guarda-roupa de vez em quando. Era comum chegarmos em sua casa no domingo à noite, eu naquela expectativa de assistir Os Trapalhões e…

– Vó, cadê a TV?
– Ah, eu guardei.

Nas primeiras vezes, não procurei saber a razão daquela resposta. Eu ainda não sabia que era um millennial, então criança nenhuma naquele tempo questionava autoridades solenes como avós. Além disso, eu iria ganhar biscoitos de polvilho e doce de leite caseiro mais tarde e não seria inteligente criar qualquer atrito com a provedora das delícias pelas quais eu esperava muito mais do que Didi, Dedé, Mussum e Zacarias.

Até que um dia, não sei se por tédio ou curiosidade, não resisti e perguntei:


– Mas, vó, onde você guardou a TV?
– Ah, Rique, sabe, é que tem passado muita violência no jornal, só notícia ruim. Quando é assim eu tranco a televisão no armário por um tempo.

Naquela noite, eu a vi abrir o guarda-roupas, afastar com seus braços os vestidos e camisas penduradas em fileiras nos cabides e revelar, no fundo do armário, o televisor preto de tubo guardado com a tela virada para trás, como se fosse uma criança de castigo (não que eu já tenha visto alguma criança de castigo dentro de um armário, talvez seja relevante registrar).

Numa espécie de protesto silencioso, minha avó calava sua TV. O mundo estava cheio de tragédias e não dava sinais de que iria mudar: PC Farias e Fernando Collor ainda estariam lá fora fazendo lambanças com nosso dinheiro congelado, os Estados Unidos continuariam em guerra com o Iraque e o São Paulo já havia perdido o Brasileirão para aquele-time-alvinegro-cujo-nome-não-se-pronuncia, com um fatídico gol do Tupãzinho. Mas o mundo dela, aquele pequeno universo de quatro cômodos e um jardim, ficaria mais sereno enquanto evitasse a exposição àquilo que não lhe acrescentaria nada.

Minha avó tinha pouco mais de 70 anos e viveu ainda até os 96, firme e elegante. Estivesse viva ainda hoje, estou certo de que abandonaria alguns grupos de WhatsApp e silenciaria redes sociais com certa frequência.

Tem quem chame isso de alienação. Prefiro pensar que se tratava de um sábio gesto de auto-preservação ou quem sabe um claro senso de prioridades na vida. Ela instituiu a desintoxicação digital antes de nos darmos conta do quanto a overdose de informações viria a interferir no nosso humor, senso crítico e transbordar de nossas mentes diante da incapacidade que temos de absorver e reagir a tudo o que nos afeta.

É preciso priorizar. Temas, telas, coisas, pessoas. É fundamental dar um tempo em certos hábitos para que possamos livrar mais tempo em nossas rotinas. Precisamos de pausas. Pausas que nos permitam organizar o pensamento, estruturar ideias, respirar e então decidir como nos deixaremos ser afetados pela carga de estímulos e o estresse que recebemos e insiste em pesar sobre nossos ombros. Há que se deixar alguma bagagem no caminho para seguirmos mais leves. Grande parte do mundo que realmente importa, em boa parte do tempo, não ultrapassa o espaço de alguns cômodos e um pequeno jardim.

Enquanto escrevo, me acomodo em meu canto favorito do sofá, pego um saco de biscoitos de polvilho da Cecília que estava largado por aqui e ligo a TV no canal de notícias, só para funcionar como pano de fundo. Vez ou outra, tiro os olhos da tela do computador para pescar o que está sendo comentado no vídeo. Na primeira olhada, me assusto com a cena do Fernando Collor destilando veneno pelo canto da boca e discursando na tribuna do Senado. Esfrego os olhos. Sinto que há algo errado – uma espécie de falha na Matrix – cada vez que o vejo naquele ambiente. Volto ao texto.

Minutos depois, outra pausa entre parágrafos, olho novamente por cima do monitor e lá está o presidente dos Estados Unidos pedindo a aliados que o apoiem em sua cruzada contra o grupo terrorista que domina parte do território iraquiano. Já é tarde, preciso terminar o trabalho e resolvo trocar de ares. Alcanço o controle remoto e mudo para o canal de esportes à procura de algo mais leve. Talvez esteja passando um jogo de beisebol. Nada é melhor do que beisebol para não atrair a minha atenção para a TV enquanto escrevo.

Mas, eis que diante dos olhos, nada de tacos, bolinhas e capacetes. Antes que eu possa desviar o foco, aparece estampada em sessenta polegadas a tabela do campeonato brasileiro. Na liderança, a poucas rodadas de se tornar campeão, pisca o nome “daquele” time. Meus olhos então percorrem a tela de cima abaixo, mais abaixo, bem abaixo e lá no rodapé, quase encostando no rack, vejo meu São Paulo amargando a zona de rebaixamento. “É só notícia ruim”, diria Dona Laudelina.

Deixo o computador de lado por um instante, afasto o saco de biscoitos, me levanto do sofá, caminho até o quarto e enfio os braços entre camisas e jaquetas penduradas nos cabides até abrir um espaço largo, de umas sessenta polegadas, widescreen, no fundo do guarda-roupa. É hora de dar um tempo.