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Manias completamente inviáveis para esse momento da vida

Luiz Henrique Matos

09 Novembro 2017 | 22h52

Comecei a dar fim às minhas manias. Acho que foi há mais ou menos um ano, quando me peguei num dilema tentando decidir se organizava os aplicativos do meu celular por ordem alfabética, em sequência gradual de cores ou por assuntos (e sendo por assuntos, como classificá-los então? O que colocar em pastas e o que simplesmente deixar como ícone na tela?). De repente, notei que estava travado nessa questão idiota e meio que resolvi dar um basta.

Não que eu tenha deixado de organizar as coisas, todas as coisas, um pouco além da média, mas desde então venho desafiando minhas manias, tentando confronta-las até o ponto em que consiga viver normalmente sem aquele antigo hábito. As camisas, por exemplo, eu já não organizo por ordem de cores. O mesmo com as calças, que também ficavam em cabides na sequência do jeans mais claro para o mais escuro no final ou as camisetas que eram colocadas em pilhas pre-determinadas por cores, assunto, estampa e textura nas gavetas. Agora, eu praticamente virei um rebelde. Misturo tênis, sapatos e chinelos sem a preocupação de deixar os mais formais de um lado e os informais do outro. Agora eu guardo pijama junto com bermuda, penduro o boné junto com as gravatas, deixo a gaveta fechar com uma beiradinha de tecido sobrando para fora e já consigo ter mais roupas – uma peça ou duas – além do limite estritamente necessário ao qual me condicionava.

Pode parecer tudo muito idiota para você. Mas acredite, é tudo muito idiota para mim também. No entanto, tem sido uma conquista significativa vencer essas barreiras nas quais eu empacava vez ou outra. Em parte, atribuo minha nova fase ao tal dia que comentei acima em que travei com o celular nas mãos, mas há uma grande carga de responsabilidade pesando sobre um cara que trabalha lá no escritório. Porque outro dia, estávamos voltando de uma reunião quando comentei, meio brincando, sobre como catalogava meus livros por temas e interesses. Na hora, ele se entusiasmou:

– Eu te entendo! Sou assim também. E aquele lance de gastar as solas dos sapatos por igual, você também tem?
– Oi?
– É, o sapato tem que gastar a sola por igual!
– Não, eu…
– E deixar as calças penduradas com as barras viradas na mesma direção? E guardar os sapatos com os cadarços dentro?
– Hum, eu não…
– Você também bebe café com a mão esquerda, né? E abre a porta do banheiro usando papel para não contaminar as mãos?


E o cara despejou ali, na minha cara, outras seis esquisitices que eu ainda não conhecia. Mas no momento em que parei para pensar que todas elas soavam como excelentes ideias para incorporar, me dei conta de que não, eu não queria, definitivamente, continuar com aquilo. E foi o segundo basta que me estabeleci.

Primeiro, porque isso me daria um trabalho danado e confesso que não tenho tempo para assimilar novas manias em minha atribulada rotina, por mais tentadoras que sejam. Segundo, porque eu assinaria um atestado de TOC e precisaria começar um tratamento sério e tudo (e convenhamos, ninguém quer ter a doença que o Roberto Carlos tem). Terceiro, porque preciso parar com essa mania de listar as coisas em ordem numérica. E quarto, porque essa é uma doença inviável no meu momento atual de vida — porque meu momento atual de vida inclui ser o único homem numa casa com três mulheres e uma cadela. Todas elas, as quatro, absolutamente, absurdamente, completamente bagunceiras. De pouco adianta você querer alimentar suas velhas manias ali, sossegado, num apartamento modesto, quando todo o ecossistema ao seu redor é o caos instaurado na Terra. Tentei fazer delas pessoas mais parecidas comigo (coitadas), mas a chegada do furacão Lucy ha três anos e de Cecília, a tempestade ruiva, sacramentou o fim dos meus planos. Hoje, há peças de LEGO por todos os lados e o assoalho de madeira da sala se tornou um ladrilho multicolorido.

Então, desisti de minhas manias. Uma a uma, comecei a elimina-las. Já não organizo a área de trabalho do computador diariamente, já não me incomodo de ter uma ou duas folhas de papel sobre minha mesa (três já é demais, certo?), deixo meus tênis jogados num canto da sala durante o fim de semana e até largo a toalha molhada sobre a cama de vez em quando (de propósito, só de maldade, por uns 15 minutos, aí eu vou lá rapidinho e estendo no banheiro). Minhas camisas até estariam refletindo algum novo conceito de diversidade de cores não fossem todas elas azuis, e tenho me permitido deixar as coisas como estão, deixar os cabides virados para lados diferentes, tenho deixado a Manú ocupar o meu lado na pia do banheiro com escovas de cabelo, cremes e maquiagens e deixado a Nina fuçar nos meus livros e guardá-los na estante fora da ordem original.

Mas, o mais importante, é que tenho deixado de me preocupar obsessivamente com a quantidade de coisas que ainda tenho para fazer e as listas infinitas de tarefas e projetos. Joguei fora uma tonelada de pesos que carregava desnecessariamente em minha consciência. Fiz uma única lista, mental, das manias que preciso eliminar em minha vida para ser uma pessoa mais leve. E descobri, de repente, que agora estou aqui travado em uma nova obsessão: a mania de eliminar manias.