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Existe outra cidade

Luiz Henrique Matos

18 Janeiro 2018 | 21h08

Se um dia você estiver passando perto de uma ciclovia em São Paulo, notar um gordinho barbudo pedalando feliz, deslizando sua bicicleta pelas ruas e lhe ocorrer que ele se parece muito comigo, saiba que aquele não sou eu.

Sou, no entanto, o outro gordinho, 600 metros atrás, ofegante, suando bicas, arrastando uma bicicleta ciclovia acima (não importa que seja uma reta ou descida, a sensação é de que estou sempre subindo). Mas, sim, agora eu pedalo. E ainda que a expressão em meu rosto não demonstre, isso me deixa feliz.

Faz coisa de um ano e meio que a bicicleta se tornou meu principal meio de transporte na cidade. A contragosto, confesso. Antes de adotá-la, tentei inúmeras rotas dirigindo por vias alternativas e testando a capacidade criativa do Waze, tentei andar de ônibus, trem, combinações de carro, ônibus e trem. Mas nada me fez conseguir chegar no trabalho em menos de uma hora. Até que me convenci de que poderia tentar pedalar.

Eu não pedalava desde a adolescência, quando fiquei grande demais para a Caloi Cross azul que herdei do meu irmão e não fiz o upgrade natural para uma Caloi 10. O tempo passou, perdi o interesse, comprei um carro e depois outro e ficava parado em congestionamentos por aí observando ciclistas imunes às filas intermináveis de carros e, apesar de alguma inveja, sentia que jamais poderia adotar aquela coisa juvenil como meio de transporte.

Me tornei praticamente um ativista agora. Assino petições, participo de grupos de discussão, contribuo com entidades que se preocupam com elaboração de leis e programas de educação cidadã, uso sinalizações, tento convencer colegas a pedalar também e saio por aí dando bronca em motoristas e ciclistas que desrespeitem as boas regras de convivência pelas ruas.

As ruas. Foi isso, no fundo, que adquiriu outro significado. Porque em São Paulo, na mesma São Paulo por onde dirigi nos últimos 20 anos, existe outra cidade. Sentado sobre o selim que me fez descobrir a existência do cóccix, passo a enxergar e conviver em um ambiente diferente. Muito além de sentir o vento fresco no rosto, vivo com a possibilidade de estabelecer contato real com outros pedestres e ciclistas, enxergar detalhes, experimentar a generosidade de pessoas que se prestam a ajudar, ser mais gentis, conversar e trocar experiências sobre rotas, equipamentos e novos caminhos. Comparado à vibrante experiência da vida nas ruas, dirigir um carro me soa agora como conhecer o mundo pela tela de uma televisão.

Nesse meio tempo, levei um tombo, fui assaltado, escapei ileso de um atropelamento, depois caí de novo e estou contundido nesse momento e impedido de pedalar pelos próximos três meses. Ainda assim, nenhuma alternativa à bicicleta me parece melhor. Eu moro na periferia e trabalho na Zona Sul, o que me dá o privilégio de conviver com pessoas que usam a bicicleta como opção de transporte, mas também com as que a usam por falta de opção.

Ano passado, a bicicleta completou 200 anos de sua invenção e nada me faz acreditar que elas não sejam ainda hoje o meio de transporte mais moderno e humano que poderia ocupar metrópoles como São Paulo. Investir em um instrumento de mobilidade sustentável e simples é elevar nossa condição à de cidade inteligente. Tive a oportunidade de viajar para Copenhagen, Berlim e Nova York nos últimos anos e é admirável o protagonismo que as bicicletas têm no trânsito dessas cidades. Isso deveria ser prioridade na pauta de prefeituras e organizações que pensam a forma como convivemos nesse ambiente.

Infelizmente, apesar de alguns avanços nos últimos anos, nossa realidade ainda é outra.

No meu caminho diário, atravesso o campus da USP. Sinto o cheiro do verde, escuto uns passarinhos cantando, tomo fina de motoristas, transpiro, engulo insetos e me sinto novamente com 12 anos circulando por aí a pouco mais de vinte quilômetros por hora. Beirando os 40, eu já não imaginava que seria capaz de mudar meu estilo de vida, mas pedalando tenho vivido mais perto dessa cidade com a qual sonho.

Foi em uma manhã no fim do último verão que eu vivia o ápice desse momento, parado no cruzamento da Praça Panamericana, o sol tocando meu rosto enquanto mirava a sombra de uma árvore e atrás dela um café abrindo as portas. Pensei em me acomodar em alguma daquelas mesas por alguns minutos, mas desisti. Eu já nem me dava conta do ruído dos carros ao redor. Olhei para o céu e notei um pássaro voando em minha direção. Ele se aproximou e pude ver: era um tucano. Chegou mais perto, mais perto e deu um rasante, defecou em minha cabeça e, enquanto limpava o capacete, pude ouvi-lo cantando “aceleeera, aceleeera!”.

Daquela manhã em diante, as coisas mudaram bastante. A imagem do pássaro bicudo inaugurou uma maré ruim para o pedal. As ciclovias estão sujas, os buracos não são mais tapados, os carros andam meio agressivos nas ruas e a satisfação de deslizar em duas rodas pela cidade se transformou em ato de resistência.

Minha esperança, lá no fundo, é de que novos ventos tragam um tempo diferente para nossa cidade. E quem sabe um dia, eu seja o gordinho barbudo lá da frente.