As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Estourando bolhas

Luiz Henrique Matos

15 Fevereiro 2018 | 23h25

Um dos passatempos favoritos das meninas aqui em casa é fazer bolhas de sabão. Lembro da Nina ainda pequena (quer dizer, menor do que ela é hoje), encantada com aquelas circunferências transparentes flutuando no ar. Eufórica, ela ria e as perseguia tentando capturar alguma com as mãos. Ainda outro dia, eu a notei parar na rua para observar as bolhas sopradas por outra criança sendo levadas pelo vento.

Há alguns meses, estávamos viajando em férias e foi a vez da Cecília, dois anos recém completados, se deparar com um sujeito vestido de palhaço no meio de uma praça fazendo bolhas de sabão gigantes. Ela corria atrás daquilo sorrindo como se não houvesse nada melhor na existência. Para a Manu e eu, foi como reviver a fase em que a Nina fazia o mesmo. Para os outros turistas na praça, Cecília virou uma atração especial tanto quanto o palhaço e suas bolhas translúcidas que, aposto 10 reais, nunca tiveram uma plateia tão entusiasmada.

Às vezes, me pergunto se a graça toda da brincadeira está em fazer as bolhas ou em estourá-las. Voto na segunda opção. Crianças não contemplam bolhas, elas as perseguem e arrebentam no ar e o prazer de desfazer é tão bom quanto o de criar.

Na semana passada eu peguei um taco de beisebol imaginário e estourei minha bolha ideológica. Eu caí de dentro dela, na verdade. Aproveitei a empolgação momentânea e, tal qual minha filha naquela praça, comecei a caçar outras bolhas dentro das quais eu habitava há tempos. Havia gasto bons anos construindo caprichosamente cada uma delas e flutuava no conforto de seu ambiente auto-afirmativo, mas quanto mais alto e distante do chão eu me percebia, pior ficava minha percepção da realidade. Quanto maior ficava o eco da minha própria voz reforçando meus argumentos, mais ruidoso e distorcido se tornava o som de outras bolhas voando ao redor. Eu já não era capaz de ouvir com clareza a opinião de quem não habitava o mesmo círculo que eu.

Estou explodindo minha bolha política, dando um fim na bolha social, espetando um alfinete na religiosa e soprando longe os interesses culturais todos. Que se reconstruam sobre fundamentos e à custa de detergentes novos.

No entanto, fico permanentemente com meu círculo afetivo, por quem sou plenamente envolvido (ainda que vez ou outra tenha sua elasticidade testada por algum dos membros). Mantenho também firmes meus valores pessoais. E fico ainda, por hora insatisfeito, habitando uma bolha futebolística com meu Tricolor que, cá entre nós, ultimamente joga bola como quem estoura bolhas.

Mas o fato é que desde o primeiro tombo, passei a questionar o altar sobre o qual posicionei algumas das minhas ideias nos últimos anos todos. Li também um tanto sobre o que cientistas sociais tem chamado de “confirmation bias”.

Não que eu tenha virado de lado. O lance todo é que, acostumado que estava em me cercar cada vez mais do que me interessava e confortável em defender minhas posições acerca de tantos temas, quis retornar a um estado de essência. Tenho colocado em xeque se o que me levou àqueles pontos de vista foram realmente fundamentos sobre os quais me ergui ou se fui apenas sendo inflado de argumentos e levado pelo vento ao longo da vida. Passei um tempo acreditando que deixar de me alimentar com o conteúdo desses círculos seria alienação, até que me dei conta de que alienado eu fico quando só me permito ser preenchido por aquilo que seleciono para consumir. Comecei a estourar bolhas.

Gostaria de me permitir ser contrariado sem que isso virasse ofensa. Estou relendo meus autores de formação, redescobrindo laços, procurando novos significados e parando um instante para tentar compreender o contraditório. Tenho preferido dar valor real às pessoas pelo que são, sem julgá-las pelas ideias que expressam. E espero que esse exercício me ajude a adquirir novas perspectivas, que me dê um novo olhar para o mundo que me cerca, como numa viagem a um lugar novo, um livro que nos cativa ou uma refeição que desperta os sentidos.

Desejo, beirando os quarenta, enquanto ainda há tempo, criar novas bases para minhas crenças. Henry Longfellow disse em algum momento: “Nesse mundo, o homem deve ser uma bigorna ou um martelo”. Bigornas e bolhas são moldadas e levadas por outras forças. Quero ser um martelo ajudando a construir – e moldar – algo novo. Edificar uma sociedade diferente para minhas filhas, da qual elas sejam personagens ativas, incrustada nos fundamentos inegociáveis da justiça, do amor, da paz e da liberdade.

Isso começa hoje, enquanto estouro as bolhas e derrubo os muros que há tempos se ergueram ao meu redor e sopro em seus pequenos e inocentes ouvidos o doce som da esperança e as convido para dançar.

Que bons ventos o tragam.