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Entre nuvens

Luiz Henrique Matos

30 Novembro 2017 | 19h00

Aeroportos. Eu também teimo com aeroportos. Não sei dizer o que é, mas há uma atmosfera estranha, que em um primeiro impacto parece ter um brilho interessante e mágico mas em poucos minutos se revela superficial, limitado e ofuscante demais, perfumado demais, barulhento demais, raso demais. Tentam nos vender como shopping center o que na verdade é só o que é: um terminal de chegadas e partidas. Pessoas indo e voltando, de passagem por algumas horas, até o momento de partir, escutando as descrições de voos, as chamadas de embarque e o ruído das aeronaves decolando lá fora. Estou em um aeroporto agora.

No entanto, observar viajantes está entre meus passatempos favoritos. Mais do que faço em qualquer outro lugar, gasto minhas horas de espera antes de embarcar olhando as pessoas à minha volta e tentando imaginar suas vidas. Porque há algo diferente nesse ambiente, ninguém passa por aqui todos os dias, todos vivem essa coisa transitória, estar nesse lugar não é a rotina de ninguém sentado nessas cadeiras (é claro que os funcionários das lojas e balcões de companhias aéreas são uma exceção). Estão todos em trânsito, indo para algum novo destino ou voltando para seus lugares.

Eu só tento escutar. O casal de meia idade que come uma pizza em silêncio e sem se olhar nos olhos em nenhum momento, um outro casal de idosos que senta lado a lado na mesa do restaurante deixando as cadeiras da frente livres e conversam animados com guias de viagens empilhados sobre a mesa, executivos e executivos sozinhos digitando aceleradamente em seus computadores ou andando de um lado para o outro. Indianos, japoneses, norte-americanos, latinos, gente muito loira e branca de algum canto da Europa, um grupo em excursão viajando em férias, homens com chapéus de cowboy que julguei serem aqui do Texas mas descobri depois que eram de Goiania (estou parado numa conexão em Dallas). Duas crianças entediadas brincando em iPads com capas coloridas e outras crianças, um casal de irmãos, correndo um atrás do outro pelo terminal como se estivessem no quintal de casa. Uma mulher lendo um livro de bolso enquanto bebe uma garrafa de meio litro de Coca-Cola Zero no gargalo. Gente no celular, gente no celular e gente mexendo no celular por todos os lados absortas em suas telas azuis, isoladas em fones de ouvido que sempre me lembram o penteado da Princesa Leia. Tento escutar suas conversas.

Procuro imaginar suas vidas além dessa máscara que enxergo. Sei que você também faz isso. Quero saber como são suas rotinas fora daqui, de onde vieram, para onde estão indo. O que sonham fazer, o que as angustia agora, o que tem em suas casas, do que sentem falta, que carro dirigem, se já roubaram para comer alguma vez na vida. Fico imaginando quem é que os espera do outro lado dessa viagem aérea, quando chegarem em casa.


Foi o escritor John Gardner que disse certa vez que só existem dois tipos de histórias: a pessoa que sai em uma jornada ou um estranho que chega na cidade. Ele falava de literatura, mas talvez seja isso mesmo e eu não esteja entendendo. As histórias, de todos nós e os fragmentos que deixamos transparecer nessas amostras, nesses pequenos contatos que fazemos, no fundo se resumem a duas coisas.

Estou sozinho agora, sentando em uma mesa de restaurante, comendo uma fatia de pizza em que certamente falta alguma coisa na cobertura e espero o horário de embarque do meu voo de volta para São Paulo. É minha décima segunda viagem a trabalho esse ano. Estou cansado. Penso na frase do John Gardner e fico me perguntando onde é que me enquadro em sua sentença. Quem seria eu nesse escrutínio que faço se estivesse do outro lado do balcão me analisando? Personagem de que tipo de história eu sou?

Ainda hoje, um pouco mais cedo, liguei para casa para saber como as meninas estavam. A Nina atendeu o celular da mãe e ligou a câmera para conversarmos. Eu ainda tinha pelo menos 15 horas de viagem pela frente então e enquanto falávamos, ela caminhava por uma área aberta e me contava da festinha infantil em que estavam. De repente, parou de andar, olhou para o alto em silêncio e fixou o olhar por alguns segundos em algo que eu não podia enxergar. Então ela voltou:

– Pai.
– Oi.
– Acabou de passar um avião no céu. Queria que fosse você.

Entre uma garfada e outra na pizza, eu penso que falta orégano e certamente também falta alguma coisa na frase do John Gardner. Porque há um terceiro tipo de história, há uma outra narrativa, a saga que meu personagem vive nesse exato instante e em cada viagem que faço: um peregrino que volta para seu lar.

Por que sempre corremos de volta para o que nos espera, por que nossa alma só se completa quando reencontra a quem pertence. E às vezes isso é a busca de uma vida inteira, às vezes é a volta para casa de uma viagem e inúmeras vezes somos só nós no trânsito depois de um dia de trabalho. De volta para os braços de quem se ama, de volta aos eixos sobre os quais a vida gira diariamente, de volta para o pão com manteiga e café com leite, de volta para o coração de Deus. Todas as histórias são isso mesmo, ir e vir, os ciclos, partir e chegar, a jornada toda. E a vida se realiza na certeza aconchegante de poder ter para quem voltar.

Eu me vejo no outro lado do balcão, refletido num espelho. Já não me analiso ou faço perguntas. Sei muito bem para onde sempre volto.