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Azar no jogo

Luiz Henrique Matos

07 Dezembro 2017 | 19h54

Há um tubo de creme dental (tá bom, pasta de dentes) sendo espremido há vários dias na pia do banheiro. Ele já acabou, na verdade, mas por misericórdia divina continua cedendo um pouco, escovada após escovada, apenas a raspinha suficiente para mais uma. É o milagre da multiplicação de Colgate.

Deve haver mais três ou quatro embalagens novas embaixo da pia, ao alcance de um esticar de braços, mas queremos, devemos, precisamos extrair até o último resquício de pasta. Já lancei mão da tática de apertar perto do bocal, a de enrolar a cauda para fazer pressão e a do rolo compressor com o cabo da escova de dentes achatando ele todo. Não se pode desperdiçar, afinal.

Aí a gente gasta 20 paus no manobrista da pizzaria, comemos pipoca de 12 reais no cinema (no combo!) e jogamos dinheiro no lixo com um monte de bobagens. Mas o tubo de pasta de dentes de 3 módicos reais, esse não, esse tem que ser usado até seu último fôlego de vida.

Satisfeito, passo a bola para a Manú, curioso para saber se ela conseguirá tal feito. Sinto que esse lance é uma espécie de jogo entre os casais. Aquela colaboração e amor todo no dia-a-dia, a troca de carinhos e gentilezas do casal apaixonado, então dá lugar a um duelo competitivo e obstinado. Quem vai ceder e abrir um novo? Quem será incapaz de extrair aquela última escovada? Quem vai jogar a embalagem fora? Nada que mude o rumo da humanidade, é fato, mas entenda que é uma disputa importante. Eu faço o meu melhor, torço o plástico até tirar o resquício suficiente para sujar de verde as cerdas ultra macias da escova. “Acho que agora acabou…”. Escovo satisfeito o meu sorriso Colgate.

Enquanto esfrego os caninos, confiro algo no espelho, coloco a mão esquerda no bolso (não me pergunte porquê, mas faço isso), olho as coisas dispostas sobre a pia do banheiro e vejo a escova dela ali, dando sopa sozinha. Então lembro que em cinco minutos minha Manú estará ali diante do espelho se arrumando para deitar. Suspiro. Bochecho. Cuspo. Enxaguo a boca. Enxugo as mãos. Miro o tubo e o pego novamente. Faço um último esforço, espremo até onde posso e tiro mais alguns miligramas de creme para abastecer a escova dela também. E a deixo ali, sobre a pia, pronta para ela usar, quase como um bilhete de amor.

Enquanto o tubo vermelho maltratado repousa no fundo do lixo do banheiro, abro a porta do armário embaixo e pego uma bisnaga nova.

Perdi mais essa. Azar no jogo, sorte no amor.