As manhãs amarelas
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As manhãs amarelas

Luiz Henrique Matos

12 Outubro 2017 | 23h08

Amarelas. Assim sempre foram para mim as manhãs ensolaradas da infância. Lembro dos dias que nasciam cedo nos primeiros anos de colégio, meu pai ao volante, o paletó pendurado no encosto do banco, eu sentado lá atrás, bem no meio, o rádio ligado no noticiário com o jogral dos locutores da Jovem Pan informando as horas: “em São Paulo, seis e trinta e cinco”, “Repita!”, “Seis e trinta e cinco” e subia aquela trilha sonora sobre o trabalhador paulistano. Atrás de mim, roncava o motor do nosso Fusca setenta e tantos, o cheiro naquela mistura de couro e gasolina e a lembrança de ver o sol nascer através do pára-brisas, ofuscando a visão e convertendo tudo – o carro, minha roupa, a cidade, a gente e o dia – em um tom amarelo que definia o começo de algo.

Saíamos da Barra Funda, bairro onde morávamos, no sentido do Bom Retiro, onde ficava a escola em que eu estudava. Dali, meu pai seguiria para o trabalho. E se hoje recordo pouco de como eram as aulas, o trajeto e a rotina naquele meio da década de oitenta, os primeiros raios de sol ofuscando minha vista pela manhã enquanto assimilava a cidade ao redor é uma lembrança da infância que ainda carrego.

Hoje em dia, quando saio de casa pela manhã e agora sou eu dirigindo o carro com minha filha no banco de trás a caminho do colégio, às vezes o relógio se alinha com aquela velha hora e o sol desponta de trás de uma árvore, atravessa o pára-brisas, toca o rosto, o carro, a cidade, a gente e ofusca a visão. Há um pequeno despertar, sintonizo o rádio naquela mesma estação e escuto a trilha sonora que ainda hoje é a mesma. Eu me lembro do Fusca bege. As manhãs se tornam novamente amarelas e a infância, aquela vida e essa, o menino e o pai, estão ali convertidos em uma coisa só.

Sempre guardei isso para mim. Achava desnecessário compartilhar com alguém uma lembrança tão pessoal e desinteressante. Mas, distraído com a visão, às vezes não resisto e aponto animado o céu para a Nina que, sonolenta, mal reage.


No último Dia dos Pais, quando acordei, as meninas vieram com aquela festinha e café da manhã na cama. Cecília me abraçou, pulou no colchão e fez sua farra habitual. A Nina apareceu com um papel nas mãos e me entregou. “Pai, fiz um desenho na escola para você”. Peguei a folha e lá estavam duas pessoas sentadas ao lado de uma árvore observando o sol nascer e o céu ganhando uma dimensão de cores com sua luz.

“Adorei, filha, obrigado”, eu disse enquanto a abraçava, meio intrigado e ainda tentando descobrir o que aquilo me remetia. Olhava novamente o desenho quando ela emendou: “Somos nós dois, pai. Eu fiz porque sei que você gosta, porque toda vez que a gente está na rua e você vê o sol colorindo tudo assim, você pára, fica olhando para o céu e fala: Nina, olha esse sol!”

Elas correm em festa pela sala, radiantes, construindo a história e as memórias que sabe-se lá como carregarão um dia. Me ofuscam a visão. E para mim, nesses instantes, as recordações e o presente se transformam nas manhãs amarelas, as minhas e as delas, a continuidade da nossa existência. Os dias e a vida toda brilhando como a alvorada.

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Estreia

Esse é meu primeiro texto por aqui. Estadão foi o primeiro jornal que li, ainda na infância, debruçado sobre a mesa da cozinha e sobre tirinhas de Calvin & Haroldo no Caderno 2. Obrigado pela hospitalidade e espero que possamos desfrutar juntos a jornada.