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Árvores sempre dão crônicas

Luiz Henrique Matos

14 Dezembro 2017 | 19h17

Há árvores que dão bons frutos, há árvores que dão flores, há árvores que dão boa sombra, há árvores que dão morada para passarinhos, há árvores que dão amparo para uma soneca depois do almoço, há árvores que dão trabalho. Mas toda árvore, cada árvore, sempre dá crônica.

Para as demais coisas, cada uma dá em seu ritmo, mas a crônica a árvore dá o tempo todo. Brota do galho, da história da rua, do amor que escondeu, do fio que rompeu, do sabiá que pousou, da maçã que caiu, da sombra fresca em que alguém cochilou.

Árvores já deram livros e contos. O pé de laranja lima de José Mauro de Vasconcelos, as amendoeiras de Rubem Braga, a árvore do conhecimento do bem e do mal no jardim do Gênesis cujo fruto Eva e Adão imprudentemente provaram, a moradia suspensa de Daniel Defoe para o náufrago Robinson Crusoé. Poupo o leitor de um tratado literário a respeito mas, sobretudo, é crônica que as árvores dão para iluminar de verde o horizonte cinza de quem buscava assunto para escrever.

Quando criança, lembro do dia em que plantamos uma jabuticabeira no quintal de casa. Meu pai a trouxe da feira, abrimos um buraco no gramado, fincamos o pequeno pé e nos plantamos ali por um tempo jogando água e adubo para ela vingar. Achei que na manhã seguinte, nosso novo brinquedo começaria a brotar jabuticabas diariamente em escala industrial. Doce ilusão. Doce, não, amarga. Para minha decepção, a jabuticabeira, que apesar de miúda já era adulta quando plantada, levou ainda um ano ou dois para encher nossos tupperwares com seus frutos.


Ali, descobri que árvores não se apressam. Não há abundância de chuva, de terra, sol, sombra ou pensamento positivo que possa alterar o tempo que árvores demandam para cumprirem seu propósito. Se existe um ser que respeita e se submete aos ciclos da natureza e às estações, esse ser é a árvore. Autônomo, impassível, fresco, semente, muda e árvore.

Quando meus pais se mudaram da casa, 25 anos depois, fui até aquele quintal num sábado cedo com minha esposa e nossas filhas e entre as tantas plantas que meu pai cultivava no jardim, foi na jabuticabeira que amarrei o olhar. A verdade, me dei conta, é que nunca gostei muito de jabuticabas – mangas, mexericas, morangos, uvas e bananas ocupam a lista de favoritas à frente de bolinhas pretas com caroço – mas eu gostava demais daquela árvore.

Porque árvores nos dão histórias. E seguem nossa história quando temos o privilégio de passar a infância e os anos depois da infância convivendo ao redor de seu tronco e sob a sombra de seus galhos. Quando vemos suas folhas caindo, suas sementes germinando o chão e quando finalmente chega o tempo em que nós é que lançamos as pequenas sementes nessa terra, e os filhos brotam e crescem e correm ao nosso redor, sob nossa sombra, sob nossos galhos, até que ciclos e ciclos e ciclos se renovem. Porque as árvores nos dão também a noção do tempo que as coisas levam para acontecer nas estações da vida e nessa existência apressada que levamos.

Sabiás e bem-te-vis cantam em meio às árvores lá fora agora. Duas meninas cantam e dançam pela casa agora. Ainda é primavera e há árvores na rua e flores por esse chão todo aqui. E há sementes. As sementes que lançamos no mundo e que mais do que crônicas e árvores, nos dão nossas melhores histórias.