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Amar é pertencer

Luiz Henrique Matos

17 Novembro 2017 | 13h48

Está ficando cada vez mais difícil carregá-la no colo. Aos dez anos e quase 40 quilos, não existe uma posição confortável em que a acomode nos braços e não sobre uma perna caída de um lado ou um cotovelo pendurado do outro, ambos facilmente “esbarráveis” em algum batente de porta ou quina de cômoda e capazes de despertá-la do sono com uma pancada.

Às vezes, ela dorme no sofá ou em nossa cama e fico com pena de acordá-la e mandar que vá sozinha para o quarto. E diante de um preocupado “não faça isso, Henrique, sua coluna…” dito pela mãe, me faço de forte e devolvo um habitual “tá tudo bem, tranquilo, eu levo”. Mas, não sei se quero enganar a ela ou a mim mesmo. Dez passos depois, estou pedindo arrego e tão logo eu praticamente arremesse a Nina na cama, saio ofegante corredor afora, meus braços tremendo e sigo até a cozinha em busca de um copo de água.

Parece uma coisa trivial, é parte do ciclo da nossa espécie: crianças crescem e se tornam adultos um dia. Mas entenda, para quem alimenta um certo orgulho em ter esses pequenos seres sob sua proteção e dependência, é simbólico esse momento em que preciso lidar com o fato de que minha menininha já não cabe em seus braços. Pior do que reconhecer talvez seja lidar com a ideia de que ela ainda não percebe o tamanho que já tem e que cabe a mim ser o portador da notícia que nem eu mesmo gostaria de encarar.

– Pai, me leva de cavalinho?
– Quer subir nas minhas costas? Pula aí?
– Não. Eu queria ir no seu pescoço.
– No pesc… hum, Nina, acho que você não cabe mais.
– Por favor!
– Filha, se você subir nos meus ombros, vai bater a cabeça no lustre.
– Mas você leva a Cecília.
– Sua irmã tem 80 centímetros. Você já é uma moça de quase três metros.


Ela torce a boca frustrada. Então volta com outro pedido:

– Então você faz cócegas?
– Essa é minha especialidade.

Fico satisfeito em saber que ela ainda não descobriu que seu pai é uma fraude barbada – e olha que nem mentir eu sei – e procuro usufruir a condição momentânea de herói da casa. Mas, até quando isso vai durar?

Meu medo não é que minhas filhas cresçam, a verdade é que a Manu e eu nos esforçamos para que isso aconteça. O assombro é diante da separação gradual e inevitável que começará em algum momento e seguirá vida afora. Porque os filhos deixam de pertencer aos pais em algum momento entre o começo e o fim da adolescência, mas os pais, desde aquele primeiro amparo nos braços, desde aqueles primeiros instantes mágicos em que os olhares se cruzam, desde os primeiros e segundos e terceiros passos e por todos os outros vida adiante, os pais sempre pertencem às suas crianças. Os braços estendidos, o colo disposto, a atenção dedicada ao primeiro balbuciar de pedido de amparo.

O paradoxo todo é esse, porque são os provedores que renunciam, os protetores que se entregam, são os super heróis que, no fim das contas, se rendem.

Amar é pertencer.

Porque o amor pressupõe o outro. E é o tipo de sentimento que quanto mais se tem, menos se tem, na verdade. Porque quanto mais você ama, mais você dá, mais você cede, mais abre mão de seus planos para proporcionar felicidade ao outro. Quem ama não controla, quem ama tem no outro o seu eu. A escolha, no fundo, é sobre a quem deseja se doar. É uma perda voluntária de controle. É o tipo de renúncia que fazemos por quem nos permite dividir um teto ao seu lado, que mártires fazem em nome de suas crenças, líderes fazem por seu povo, que Deus faz que pela humanidade. É o tipo de entrega que fazemos, incondicionalmente, pelos filhos.

Pertenço a essas duas meninas, como pertenço à mãe delas. Estou ali em cada desenho rabiscado nas duas mil folhas guardadas como relíquias no armário ao lado de documentos como a escritura da casa e nossos diplomas de faculdade. Pertenço às historinhas que invento à noite, habito as memórias que estamos construindo juntos como família. Vivo em cada minuto dessa rotina cotidiana que define o que somos, na expectativa de que estejamos plantando hoje as sementes que as farão desejar voltar para casa depois que alçarem voo, que suas asas as levarem para longe e suas conquistas as fizerem tão grandes que já não caberão em nossos braços.

Esse tempo chegará mais cedo do que eu imagino e muito antes do que eu desejo. E se em breve já não poderei oferecer colo, espero ao menos que elas saibam que à inteira disposição estarão sempre meus ombros para quando lhes faltar apoio para uma lágrima ou mais, os ouvidos prontos, o peito aberto, a conversa à toa e o coração transbordando de certeza de que não só seu pai, mas o mundo todo lhes pertence.