A última casa antes do deserto
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A última casa antes do deserto

Luiz Henrique Matos

03 Novembro 2017 | 01h12

Aquela era a última casa antes do deserto estender-se quase infinito à frente. Por cinco ou dez minutos era só o que eu observava enquanto via passar o mundo em miniatura através da janela do avião.

Havia alguma cidade adiante, mas até que estivéssemos sobre ela, já vinha há quase uma hora notando a sombra da aeronave projetada no chão árido. Mas, à medida que a civilização surgia no horizonte, podia ver claramente a borda que separava o deserto de um muro. E projetando-se acima da altura do muro havia uma casa, isolada, longe um quilômetro ou mais dos primeiros vizinhos e cuja janela abria-se diante das centenas de quilômetros de terra seca e vegetação rasteira sem que houvesse nada adiante.

Em vão, tentei imaginar qual havia sido a última casa que avistei antes daquela paisagem começar tantos minutos antes. Quem seria, sabe lá, o vizinho de janela do menino que talvez habitasse aquele quarto e escrevia mensagens no vidro para alguém que um dia passasse por ali? Quem dormiria ali do outro lado se a terra pudesse ser magicamente dobrada, o deserto fosse sugado e as casas se emparelhassem de repente? Quem sabe, fosse esse o pensamento ocupando as noites solitárias de uma viúva que perdia o sono olhando o silêncio todo à sua frente e esperando que um dia um transeunte por ali passasse e notasse os vasos de flores que ela dispunha delicadas sobre o parapeito.


O avião aterrissou minutos depois e a história dormiu em minha mente por alguns meses até hoje cedo, quando estava na varanda do apartamento trocando alguns vasos de lugar. Temos flores em nossa pequena sacada. A Manú rega regularmente e poda com cuidado. Temos um pé de bambu e algumas ervas também. Mas não há vizinhos próximos diante de nós que as vejam. Nossa vista se estende para um campo e grande parte do que observamos é o verde de um gramado e das árvores. É uma visão linda. Há pássaros que cantam pela manhã em revoada e sapos coachando nas noites de verão.

Ainda assim, trata-se de uma falsa sensação de liberdade. A verdade é que moramos em um condomínio e rodeados por um muro com cerca elétrica. E vivemos cercados também por esses desertos silenciosos. A vida urbana moderna – chame você como quiser – tem tido um efeito duro sobre nós. Vivemos amontoados em cidades cada vez mais densas e ainda assim cada vez mais distantes uns dos outros.

A verdade é que nunca troquei mais do que um “olá, boa noite” com meu vizinho de porta, não sei o nome da dona da mercearia onde compro leite e manteiga toda semana, já esqueci o apelido do porteiro para quem aceno diariamente quando saio de bicicleta. As fortalezas que erguemos em torno de nossas casas ocuparam também nossas mentes e tudo com o que nos relacionamos com alguma profundidade limita-se ao pequeno mundo que habitamos.

Como resultado, perdemos a tolerância, a sensibilidade para o outro, sua dor e suas questões, e deixamos de lado, pouco a pouco, o interesse pelo que é caro ao nosso próximo. Com isso, abandonamos a possibilidade da troca e do aprendizado que o convívio em comunidade nos permitiria. Nos isolamos. Eu olho pela varanda e vejo janelas de casas no horizonte, mas elas não dizem nada sobre quem as habita. Olho para o carro ao meu lado na rua e sequer vejo o rosto de quem o dirige.

Nos fechamos em bolhas, nos encastelamos em ideias e valores. Com nossos medos e preconceitos, nossas almas tem se tornado áridas. E enquanto fechamos os olhos para o que está lá fora, permitimos que desertos inteiros se formem entre nós.

Escutar o outro, respeitar o vizinho, dividir o pão com um desconhecido, cumprimentar as pessoas com quem cruzamos diariamente, caminhar a pé pelas ruas do bairro com nossos filhos e distribuir alguma gentileza para um motoqueiro apressado. A bondade soa escandalosa hoje em dia. Respeitar e conviver com as diferenças, lidar com o contraditório sem rejeitá-lo, tudo isso é um ato de insurgência, uma espécie de rebelião que precisamos encampar. Porque em um mundo intolerante e violento, a paz é uma arma de resistência.

No fundo, todos queremos as mesmas coisas. Abaixo da superfície, reside em cada um de nós o mesmo desejo por justiça e habita adormecida a consciência de que somos irmãos. Queremos uma cama para dormir, tomar um banho quente e fazer nossas refeições com nossas famílias. Queremos um futuro para nossos filhos que seja melhor que o nosso (não importa como seja o nosso). Queremos ter alguém para dividir nosso tempo, nossos sonhos, um teto e construir uma boa história.

São escolhas que precisamos fazer nesses dias e talvez uma causa pela qual lutar silenciosamente. O heroísmo da vida cotidiana, dos pequenos gestos. Para cada nova janela que abrirmos, a certeza de que surgirá um novo horizonte, uma nova perspectiva, um mundo inteiro que se reconstrói. E para cada mão estendida em ajuda, o poder de dobrar a terra toda, eliminar desertos e trazer de volta para perto tudo isso que tanto importa e que já estava tão longe.