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A novela, uma primavera e a esperança de um final feliz

Luiz Henrique Matos

23 Novembro 2017 | 23h57

Parei de assistir novelas em algum dia lá no final dos anos noventa. Eu não lembro exatamente que novela era, mas me recordo que até aquele momento na minha vida, o fim dos dias se resumiam em chegar da rua, tomar um banho, dar boa noite para o Cid Moreira, assistir a novela e ir dormir. A agenda do Brasil era essa, eu acho. Chegar no escritório no outro dia e comentar sobre a vilã, os mocinhos, tentar descobrir quem matou o patriarca rico, falar o jogo de futebol da semana e o preço da carne. Naqueles dias, a internet era uma coisa incrível que ainda estávamos descobrindo. Aí vieram os reality shows. E tirando a primeira edição de Casa dos Artistas em que votei para o Supla e seu pijama azul ganharem a bolada, nunca mais me interessei por esse tipo de programa.

Conheço pouquíssima gente que assiste a novela hoje em dia. Mas o país inteiro acompanha assiduamente o reality show que virou nossa cena política. Votações públicas na TV Senado, transmissão ao vivo de julgamentos no STF, vídeos mal editados de audiências com juízes federais, tudo passando na televisão em horário nobre. Até temos direito a voto, mas acabamos escolhendo os vilões. Eu nunca imaginei que saberia tanto sobre a vida de um juiz e que me informaria a respeito dele nas colunas sociais dos jornais. Estamos em uma crise econômica, moral e política sem precedentes e enquanto cavamos o buraco em que afundamos, assistimos a derrocada da nossa sociedade bebendo um pingado no balcão da padaria.

Você tem alguma esperança de que as coisas no Brasil serão diferentes? É uma pergunta que eu tenho, de verdade. Lendo as notícias, acompanhando o vai e vem da cena nacional, os julgamentos, as negociatas, gente que vai presa, depois solta e aí prendem de novo, ou não (eu juro que já nem sei quem está livre e quem está preso, deveria ter um aplicativo para ajudar nisso). Mas, será mesmo que podemos ter esperança de que as coisas serão melhores no futuro?

Estou lendo os últimos capítulos de uma biografia de Martin Luther King, um dos meus heróis. Para um cristão envergonhado com o que uma parte pequena – mas representativa e barulhenta – da nossa categoria tem feito nesses dias, relembrar a história de um homem como ele me faz pensar que existe a possibilidade de que novos líderes surjam em nosso meio e de que mesmo em meio à crise é possível alimentar o sonho de que algo novo e bom pode emergir.

No entanto, o ponto que me intrigou desde as primeiras páginas do livro é justamente onde as coisas começaram. Não foi em Oslo, recebendo o Nobel da Paz ou em Washington depois de seu discurso antológico que o movimento começou. O nascimento de sua bela história foi liderando um pequeno e pacífico protesto na cidade de Montgomery no Alabama e clamando pelo direito dos negros de ocupar os assentos livres nos ônibus da cidade que eram para uso exclusivo de pessoas brancas. E o fez da forma mais autônoma e simples possível: boicote. Era isso, havia um foco, havia uma agenda, um movimento organizado para escancarar a injustiça e uma ação prática de resistência em uma cidade com pouco mais de 100 mil habitantes. Ali nasceu um movimento que mais do que a história ou as leis, mudou o curso da vida de milhões de cidadãos que até então tinham seus direitos usurpadas pelo preconceito.

Em certo momento, ele diz: “Na hora do rush, as calçadas ficavam cheias de trabalhadores e empregados domésticos caminhando penosa e pacientemente para o trabalho e de volta para casa, às vezes por quase vinte quilômetros. Eles sabiam por que estavam caminhando, e esse conhecimento se evidenciava na forma como se portavam. E ao observá-los percebi que não há nada mais grandioso do que a coragem inflexível de indivíduos dispostos a sofrer e sacrificar-se por sua liberdade e dignidade”.

Eu trabalhava perto do Largo da Batata, em São Paulo, em junho de 2013 e vi da janela do escritório a primeira concentração de pessoas protestando contra o aumento das passagens de ônibus. Havia talvez uma centena ou duas de pessoas por ali e confesso que por uns dias eu fui cético. Mas depois eu me animei e aderi. E estava trabalhando em Brasília semanas depois, no dia em que estouraram os maiores protestos e havia gente fazendo coro e botando fogo em frente ao nosso parlamento. Lembro de deixar a cidade no fim da tarde escutando no rádio do táxi o noticiário dando conta de que milhares de pessoas começavam a ocupar a Esplanada dos Ministérios. Voei para São Paulo em certo estado de euforia, quando perto da hora de aterrissar o piloto avisou que não tinha teto para descer (sim, primeira vez que escutei a expressão “não tenho um teto para descer” e fico pensando até agora no quão bizarra essa frase soa). Um bom tempo depois, o voo seguiu para Ribeirão Preto, nos enfiaram num ônibus e seguimos por seis longas horas na estrada até chegarmos em casa. No trajeto todo durante a madrugada eu não conseguia dormir. Acompanhava pelo celular as notícias de protestos acontecendo país afora. Era a nossa primavera. Milhões de brasileiros nas ruas, protestando por algo concreto, desejando uma mudança real, cheios de esperança. Mas, considerando essa nossa letargia de agora, me pergunto não fazemos mais tanta questão daquilo ou se enfim se esgotou nossa capacidade de indignação.

É preciso muito mais do que vontade e competência para começar a mudar as coisas. É preciso também atitude. Levantar do sofá, pisar na rua e dar um passo após o outro, fazendo algo para colocar mais um tijolo na construção de um projeto relevante para a sociedade, “com a coragem inflexível de indivíduos dispostos a sofrer e sacrificar-se por sua liberdade e dignidade”.

Tenho amigos fazendo isso. Mas são poucos. Eles estão nas ruas, na cidade, na comunidade em que vivem, servindo ao próximo. Alguns deixaram suas carreiras em empresas para se dedicarem às causas que lhe são caras, outros dividem seu tempo entre uma vida que paga as contas e outra, que alimenta seus sonhos. Ninguém está escrevendo extensos projetos de lei ou se candidatando a cargos públicos, mas estão a seu modo contribuindo para que a sociedade, aquela pequena sociedade, o microcosmo que habitam, seja um lugar melhor. São os heróis que não vemos, mas seu gesto tem um poder multiplicador entre quem os acompanha e observa.

Mas, eu não. Fico aqui perdendo o sono com nossas excelências e meritíssimos, e amanhã tenho trabalho, tenho dentista, tenho que resolver umas coisas aqui de casa, tenho que ir no cartório, você sabe, as obrigações de sempre. Eu não perco o sono por isso, gasto meu tempo tentando resolver esses problemas cotidianos, riscando itens da lista de pendências, tentando trazer o leite e o pãozinho para casa e, de alguma forma, resolver parte do nosso futuro doméstico. Mas aí, tem essas coisas todas, as grandes e importantes mudanças que sempre ficam de lado. E as manifestações de quatro anos atrás ecoam na memória.

Outro dia, estava no quarto assistindo ao noticiário enquanto minha filha de 10 anos lia sentada ao meu lado. No final da reportagem, ela abaixou o livro e perguntou:

– Pai, me explica o que aconteceu?

Era uma matéria sobre as investigações no congresso. Tentei resumir, falei sobre o sistema político no país, o trabalho de um deputado, o conceito de corrupção e sobre como algumas daquelas pessoas desviaram dinheiro de empresas públicas e agora estavam sendo descobertas, investigadas e presas.

– Filha, a maioria só está preocupada em tirar vantagem para si. Eles não pensam no povo. Ficaram muito, muito ricos roubando o nosso dinheiro e desviando o que deveria ser distribuído para os mais pobres.

Ela refletiu um segundo e devolveu.

– Entendi, pai. Então eu acho que vou ser política.

– Por que, Nina?! Você não entendeu o que eu disse que eles fazem?

– Entendi, pai. Mas alguém tem que chegar lá para arrumar essa bagunça.

Se quer saber, eu acho que sim, que podemos ter boas esperanças. Mas, desde que a exemplo desses heróis – Martin Luther King, meus amigos e tanta gente que se sacrifica pelos outros – eu comece a me mexer também e me torne parte da mudança. O que não posso é reclamar o tempo todo, assistir impassível a essa novela e continuar sendo o elo vulnerável da cadeia, entende?

“Eles sabiam por que estavam caminhando…”

Quem sabe assim, dando um primeiro passo, varrendo a calçada, ocupando uma rua, boicotando um ônibus em sacrifício pela liberdade dos meus semelhantes, alguns sonhos finalmente se tornem reais e minha filha tenha um trabalho mais suave pela frente.