As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

A arte de dizer não

Luiz Henrique Matos

16 Abril 2018 | 15h24

Cecília, minha filha, diz não com a facilidade de quem solta um bocejo. Não interessa se estamos mandando que vá para a cama ou se estamos oferecendo um pote inteiro de sorvete de morango (seu favorito), se naquele momento não lhe parece conveniente, ela nega sem peso na consciência.

Estou convencido de que só existem dois tipos de pessoas quando o assunto em questão é a propriedade para responder convites ou propostas: pessoas como Cecília e pessoas como eu. Em posição diametralmente oposta à da minha filha caçula, estou no grupo de indivíduos que à luz de uma pergunta contraditória se coloca a… bem, entenda, ficamos assim, você sabe, talvez um pouco, só um pouco… titubeantes?

Tenho dificuldade em dizer não.

Como boa parte das crianças de três anos, Cecília gosta de se divertir em posições não ortodoxas: assiste tv deitada no sofá com as pernas pro alto e de cabeça para baixo, desenha em uma folha de papel apoiada no chão enquanto o corpo está em cima da cadeira, brinca com suas bonecas embaixo da mesa de jantar. E nessas condições, concentrada em algo que a capture ou entretida com qualquer outra coisa, é que um convite nosso lhe atravessa os ouvidos: “Cici, filhinha, venha comer”, “Cici, quer um suco?”, “Cecília, você precisa vestir uma roupa para sair, não dá para ir só de galochas e camiseta na rua”, “Filha, vamos no parquinho?”, “Cecília-Matos-agora-é-hora-de-ir-pra-cama-e-eu-quero-você-deitada-e-eu-não-quero-ouvir-nem-mais-um-pio!”

Ela não se abala, não move os olhos, não pensa duas vezes. Ela respira suave, abre levemente os lábios e diz apenas um sereno e seguro:

– Não.

E se um dia você passar aqui em casa e conhecê-la, vai testemunhar que diferente do que as respostas diretas talvez sugiram, Cecília é um doce. Sorridente, amorosa, preocupada e intensa em suas emoções. Ela é pura festa, uma pequena tempestade de cabelos vermelhos que sopra seu vento forte enquanto se move saltitante por todo lado. Costumamos dizer por aqui que ela não adormece, ela desliga, porque desde o abrir dos olhos até o último minuto enquanto resiste acordada, ela opera a pleno vapor. Cecília não tem meios-termos. O negócio, é que ela tem, naqueles 80 centímetros, a abundância de segurança sobre seus interesses que eu, com o dobro e mais uns tantos da sua estatura, não desenvolvi até hoje.

Dizer não é uma arte. Talento natural para personalidades como a da minha filha, mas um duro e necessário exercício para gente mole como seu pai.

Não a convites ruins e não a convites bons em horas erradas. Dizer não às tentações, não a certas propostas irrecusáveis, não a cafés, almoços, festas e jantares que nos darão mais sono do que ânimo. Precisamos dizer não (e deixar para trás) alguns pesos desnecessários que carregamos na vida. Certos relacionamentos que mais sugam do que entregam. É preciso dizer mais nãos. Para estabelecer os limites claros, fixar barreiras invioláveis. Porque, paradoxalmente, só ao estabelecer limites é que abrimos espaço para nossa liberdade.

É necessário, de uma vez por todas, dizer não ao abuso, às invasões, ao cerceamento de nossa liberdade, ao gesto hostil que fere aos poucos. Dizer não ao que nunca foi “sim”, mas talvez não tenha ficado claro. É mandatório resistir a um sistema opressor para que possamos quebrar os ciclos de escravidão a que vamos nos submetendo e consentimos com nosso silêncio.

Dizer não, simples assim, às coisas que não queremos e não precisamos fazer, mas que de certa forma deixamos que acontecessem. Porque nem toda oportunidade é uma oportunidade para mim. Devemos abrir mão com nossas mentes em paz.

Bom, pode ser que você esteja no grupo da Cecília. E aí, tudo isso que falei acima pareça um grande exagero. Mas eu acho que a maioria das pessoas que conheço sofrem do mesmo mal que eu. E nesse caso, é bem possível que precisemos começar a dizer não para o acúmulo desnecessário de bagagens que carregamos nessa jornada.

* * *

Cecília está aprendendo a usar outra expressão nesses dias. Ciente de que sua opinião direta pode suscitar desconfortos, broncas e ordens mais exaltadas dos pais, ela descobriu algo que relativiza um pouco as coisas.

– Cici, vamos lá tomar banho? – a mãe lhe diz enquanto passa pela sala.

Ela não se mexe, mas esboça um sorriso e devolve:

– Talvez.

O engraçado é que, na tentativa de empregar a palavra nova, ela a usa mesmo em situações sem sentido.

– Cici, como foi na escola hoje?

– Hum, talvez.

Entendeu a coisa? Isso é o maior truque, é o princípio do fim de algo bom… Porque ela não disse nada de fato. Ela não desagradou a mãe, mas não disse que iria acompanhá-la. Cecília, aos três anos, está aprendendo a perceber as convenções sociais dos fracos.

Se fosse possível transportá-la uns 30 anos adiante no tempo e ela estivesse aqui ao meu lado nesse sofá agora, eu diria “não, filha, não faça isso” e tentaria lhe mostrar as consequências, mostrar que um “talvez” aqui, um “quem sabe” ali, um “pode ser”, o “vamos ver” ou “vamos marcar” não são flexibilizações necessárias, não valem como concessões justas em relacionamentos ou negociações úteis, são apenas um agrado momentâneo ao ego do outro para evitar pequenos conflitos. É uma procrastinação de decisões que podem ser tornar complicadas demais depois. E na maioria das vezes, esse pequeno conflito, um posicionamento diante do contraditório, é uma atitude necessária para evitar um problema maior no futuro em que a vítima, fatalmente, é aquele que cede.

Aproveitando que viagens no tempo, mesmo que fossem possíveis, seriam coisas raras na vida, eu diria ainda outra coisa nessa conversa: “Espere um pouco, filha, só mais alguns meses, eu acho. E logo mais, perto dos seus também encantadores quatro ou cinco anos, você descobrirá a mágica dos porquês. Você começará a questionar os motivos, procurará suas razões e essa é a graça da vida”. Pois não me incomodo nem um pouco quando minhas ordens diretas são questionadas por ela ou pela Nina com o tradicional “Mas, pai, por quê?”. Adoro que façam isso, quero mais é que entendam – e crianças, mais do que ninguém, tem livre acesso aos porquês – para que fundamentem, para que descubram e para que o sim ou não de suas respostas sejam feitos com a sabedoria necessária para que boas escolhas sejam tomadas.

Queria plantar isso hoje, se eu pudesse. Queria lançar uma pequena semente nessa cabecinha fértil. Porque espero que um dia essa conversa aconteça de verdade. Não uma viagem no tempo, mas que o passar dos anos nos conduza finalmente a esse encontro. Cecília sentada aqui comigo, já adulta, os braços entrelaçados nos meus tal como ela gosta nessas horas, os cabelos cacheados tombando sobre meus ombros, seu vestido sempre estampado e a satisfação de poder testemunhar que suas escolhas levaram-na a viver plenamente e saber que minha filha, muito mais do que respostas, têm feito as perguntas certas na vida.