Subdesenvolvimento é não planejar as cidades pequenas
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Subdesenvolvimento é não planejar as cidades pequenas

Henrique de Carvalho

20 Setembro 2017 | 20h49

fonte: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/sp/cerquilho/historico

 

Há 13 anos estive em Brasília, ainda estudante, e esses dias me lembrei de um evento importante que aconteceu naquela data.

 


Cerquilho – SP

Era um encontro de estudantes de arquitetura. Ao final do evento, votaríamos na cidade sede do evento do ano seguinte. Igual com Copa do Mundo e Olimpíadas, mas sem o pessoal de terno nem glamour. Chegou então um pessoal que em uns três dias preparou panfletos, faixas, vídeo promocional e lançou a campanha do próximo evento em Cerquilho – SP. Todo mundo estranhou, pois o evento sempre acontece em cidades importantes como Ouro Preto, Curitiba, Belo Horizonte, Florianópolis, Recife, Rio de Janeiro, São Paulo. Cidades com patrimônio arquitetônico, cidades relevantes… Opa! Foi aí que o pessoal de Cerquilho me ganhou. Por quê Cerquilho não seria relevante?

Exatamente isso, Cerquilho é muito relevante! A proposta era fazermos o próximo evento numa cidade que representasse a maioria das cidades brasileiras. Uma cidade pequena, pacata, com baixos índices de violência, pouco ou nada verticalizada, aproximadamente 40 a 80 mil habitantes, onde acontece a vida da maior parte dos brasileiros.

Nas aulas de urbanismo, onde quer que se estude, o tempo todo vem alguém dizer “porque em São Paulo”, “Como em São Paulo” … Tudo bem, podem falar de São Paulo, mas esta não é a cidade típica brasileira, não é o que as demais cidades querem ser e não serve de parâmetro para a evolução delas, sejam do Brasil ou do mundo. — Se fosse naquele meu outro texto até diria que São Paulo sim é uma aberração que não serve pra nada, pois há no mundo meia dúzia de cidades comparáveis a ela em termos de população, mas este não é o outro texto.

 

Eu Explico

Cerquilho representa a maioria das cidades do país. Ela é o modelo de cidade que deveria ser discutida, estudada e bem cuidada por todos seus gestores. Nestas cidades todo problema tem solução. Para se universalizar o saneamento básico, é fácil. Lá a professora conhece a família do aluno, então melhorar o ensino é fácil. Pode-se desenvolver um programa barato e muito eficiente de medicina da família e extrair excelentes resultados em termos de saúde pública. É uma cidade no ponto para ser planejada e gerar resultados.  Nela é fácil de lidar com qualquer interferência e o planejamento urbano tem muito a oferecer como ferramenta. Seu crescimento pode ser ordenado, talentos e vocações locais podem ser desenvolvidos e amplificados e planos de áreas e infraestruturas verdes podem ser rapidamente implementados — a população desfrutará demais destes equipamentos, pois ali a vida urbana existe de fato e as pessoas andam tranquilas do lado de fora do portão.

 

O senhor gostaria de urbanismo como investimento ou acha que urbanismo só serve para minimizar prejuízos?

Se a cidade é tranquila e não demanda resolução de problemas detectados, temos a impressão de ser gasto inútil, pois nunca vemos alguém investindo em planejamento que não seja corretivo. Este é só um mau hábito brasileiro. Não é porque nunca vimos que a coisa não existe. Precisamos estar além dos (maus) exemplos conhecidos, além do “todo mundo faz assim”. É justamente o contrário, pois planejamento gera economia, crescimento e permite desenharmos o futuro dessas cidades com mais e muita qualidade de vida. Já pensou a beleza que seria para todo mundo se, em 20 anos, pudéssemos colher um processo de êxodo invertido, com todos saindo das grandes capitais em direção às lindas cidades de 40 a 80 mil habitantes, planejadas e bem estruturadas para receber mais moradores?

 

Terra de Vera Cruz de Ainda?

Talvez o problema seja essa nossa falta de cultura urbanística. O senso comum ainda imagina o planejamento urbano como implantação de malha viária em território inabitado, como se fôssemos ainda os primeiros colonizadores ou, mais recentemente, espectadores do crescimento das cidades a partir da expansão ferroviária. Todos temos algum amigo que voltou de uma cidade elogiando por ser planejada.  Qual não é a surpresa quando vamos lá e descobrimos ser só mais uma cidade com ruas em quadrícula e, obviamente, sem nenhum planejamento urbanístico — como na quase totalidade das cidades brasileiras, temos a malha viária organizando lotes distribuídos pela setorização convencional de usos (comercial, residencial, institucional, industrial, etc), só isso, como se planejamento fosse repetir a burocracia básica de sempre. Chamam isso de planejamento porque é só isso que é feito: malha viária e setorização. Nunca houve um plano maior, que valorizasse a vocação da cidade, sua cultura, sua relação com o relevo ou com o entorno, os ventos, seus mananciais, as potencialidades naturais. As ações neste sentido são sempre pontuais e descontínuas, perdendo-se no “é o que deu pra fazer”. Ou fazemos mais, ou seremos meros gestores da barbárie e do subdesenvolvimento que prosperam ao nosso redor.

 

É só querer que consegue

ou  A cada 15 anos há um futuro promissor de cidade que foi pro lixo

O pressuposto básico é que qualquer plano previsto para 15 anos pode e precisa ser concluído dentro deste mesmo prazo. Obviamente, precisaremos seguir o plano, levá-lo a sério, e precisamos um plano correto, bem feito, que possa ser apenas ajustado a cada 5 anos para acertar a rota de seu desenvolvimento.

Imagine como seriam as cidades do interior se planejadas para recuperar suas nascentes, reflorestar seu entorno, fazer parques permeáveis em fundos de vale, implementar acessibilidade universal, compensar duas vezes suas emissões de carbono (vamos reflorestar para vender créditos de carbono, minha gente!), implementar sistemas de transporte eficientes, escolas desenhadas para serem incríveis, e assim por diante — siga imaginando outras coisas que façam sentido, em quinze anos quase tudo dá pra fazer.

Se esta cidade quiser trabalhar duro para ser a campeã das olimpíadas de matemática daqui a 15 anos, dá pra fazer. Se quiser se associar com mais 4 cidades vizinhas para criar o polo regional dos alimentos orgânicos, dá pra fazer. Polo regional da fabricação de violões ou dos processadores de computador? Dá pra fazer. Agora imagine este cenário adotado também por cidades de até 250 mil habitantes, onde o planejamento ainda segue inexistindo apesar de ser extremamente viável.

Para tudo isso, qualquer ajuntamento de pessoas precisa de apenas uma coisa: ser exigente consigo e com os que estão ao redor, ou seja, recusar a vocação fácil para o subdesenvolvimento, aquela preguiça de fazer sempre menos, e desmontar toda a estrutura da realidade medíocre (econômica inclusive) atrelada ao atraso.

Ao vislumbrarmos como poderia ser tudo isso pronto e funcionando, identificamos quanto se perde em oportunidades, retornos consistentes e qualidade de vida a cada ciclo de 15 anos. Perde-se um futuro promissor a cada 15 anos.

 

Planejar Cerquilho é a solução para São Paulo

Isso mesmo, mas vou fechar no plural só pra não repetir e ficar mais explicativo. Planejar Cerquilhos é a solução para as São Paulos.

 

Pós-escrito: Já cansei do “é o que deu pra fazer”. Você também?

A Gal já cantou mas ninguém entendeu. “É preciso estar atento e forte” para recusar o mau hábito de refazer planos diretores a cada 10 anos ou menos, pois em geral os novos planos feitos só boicotam o planejamento anterior, como a dizer que “aqui tem um plano melhor, feito na minha gestão!”. Melhorar, complexificar e modernizar é sempre viável, mas mudar tudo, mudar foco, mudar tema, desistir dos prazos é boicotar o resultado do desenvolvimento de um plano anterior que nem teve tempo de se estabelecer. Cada plano feito e jogado no lixo é um aborto de nosso desenvolvimento — bom, por enquanto os planos também só são feitos pra inglês ver, eu sei; ninguém bota plano pra rodar de verdade, pois é na construção civil atrasada que temos que a grana mais escorre pra onde não deve ir; nunca sabemos pra onde essa grana foi apesar de todos sabermos pra onde essa grana vai. Só de escrever este parágrafo já tenho de novo vontade de desistir. É uma tristeza tudo isso que vivemos, não só o golpe, mas tudo isso, a nossa sociedade, o entorno, a falta de oportunidades, as paisagens urbanas horríveis como regra, todo esse lixo de ambiente  pra se viver que produzimos ou que foi produzido. E só consigo achar que haverá saída quando mandarmos os governos às favas e cada um começar a ser realmente exigente consigo mesmo e com os resultados advindos de todos os esforços reais somados.