PARA QUE SERVE UMA CIDADE? _ (Parte II)
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PARA QUE SERVE UMA CIDADE? _ (Parte II)

Henrique de Carvalho

23 Agosto 2017 | 17h42

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Decidi que seguirei pensando a respeito e divido aqui mais apontamentos sobre o delírio que passamos a chamar de cidade depois de tornar-se o tal objeto que não se pode pegar descrito no post anterior.

Ainda em formação e à beira de um lago, por exemplo — não são cidades ainda, são ocupações –, tornam-se muito cedo ponto de destino a atrair os de fora em função de determinada vocação a florescer ali. A cidade dos vasos cerâmicos, a cidade da pintura sublime, a cidade que trabalha o ferro e a cidade pra não se fazer nada. No primeiro povoamento arquetípico, à beira do Nilo, existe a cidade que nasce como destino ao invés da cidade entreposto.

Já li que cidades surgem do estímulo das trocas, inicialmente de mercadorias e depois todas as outras. E questiono se “todas as outras trocas” viriam depois das mercadorias. Apresento uma outra hipótese: José, um jovem solteiro, encanta-se por Samira que caminha em direção a um povoado. Ela entra numa tenda, ele a segue, pede um pouco de água como pretexto para se apresentarem, eles se apaixonam, casam-se, tornam-se comerciantes e ali nasce a cidade. Logo, esta cidade nasce antes do amor de José por Samira e depois vem as trocas de mercadorias. Novamente, cidades não servem para que haja esses eventos, mesmo que nela aconteçam coisas que poderiam acontecer também em outros lugares. Constato que muito provavelmente as trocas vem antes das cidades, sejam trocas de mercadorias, sejam trocas de olhares. Nascem das trocas, mas não existem por elas.

Esse aglomerado das trocas é inicialmente mero ponto invisível aqui ou ali. Ninguém vê mas sabe que é quando alguém decide se estabelecer exatamente em cima dele. Em seguida aparece mais gente, a vida humana vai aderindo ao lugar e ninguém viu a cidade nascer até o dia em que desabrocha no meio do caminho, para encurtar as distâncias. E à medida em que houver destinos mais adiante, entre eles nascerão mais cidades.

Na maioria das cidades brasileiras observamos um fenômeno parecido: os carros parados no sinal vermelho são oportunidades, segmentos de rua propícios ao comércio rápido da mais variada gama de produtos. É como nos pontos de parada onde ocorriam trocas — água, comida, pernoite, objetos, animais, olhares…

Depois de formada faziam um muro e esta área próspera tinha dono, chamado de rei, senhor feudal, governo local, imperador ou o que fosse. Notada a prosperidade do conjunto, a segurança oferecida, a facilidade de trocas explorando o mercado interno e eventuais estrangeiros, havia mais gente interessada em entrar do que autorização ou espaço para estivessem todos efetivamente do lado de dentro da muralha. Assim, quem não conseguia entrar se escorava em volta, comendo a rebarba das trocas facilitadas e formando seu próprio mercado ali ao redor. Dá até pra imaginar o pessoal gritando no caminho para a porta da cidade “Aqui comigo é mais barato, aqui fora não tem imposto! Esse é o mesmo que vendem lá dentro, vendo pra eles no atacado e aqui faço no varejo a preço de fábrica! Vem dar uma olhadinha sem compromisso!”

Com o tempo, obviamente, tudo isso crescia, tornava-se informalmente parte da cidade oficial. A massa ao redor já havia feito construções, ruas e tornava-se cidade anexa, incorporando-se aos trajetos das coisas do dia-a-dia. O rei, que não era besta nem nada, jogava a muralha mais pra fora e incorporava essa bagunça ao redor como sendo também a cidade, ou seja, as duas viravam uma só. Com este anel adicional já sob seu domínio, cobravam-se formalmente os impostos e a economia que se desenvolvera por conta própria ali nas bordas da cidade original passava a ser protegida pelo novo muro, mais para lá da borda original.

Podia até não servir pra nada, “mas já que o fermento está ali, deixe a massa do bolo crescer”, dizia alguém que não sei quem é.