Esse papo de revitalização e ícones arquitetônicos é xaveco
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Esse papo de revitalização e ícones arquitetônicos é xaveco

Henrique de Carvalho

05 Outubro 2017 | 02h15

FOTO ALEX SILVA / ESTADÃO

Recentemente o prefeito declarou que pretende revitalizar o centro da cidade criando ícones arquitetônicos, uma vez que não os temos na medida em que são encontrados em outras capitais mundiais. Na medida do quê? Na medida de algo que possa ser medido: escala, intensidade, volume, quantidade, exuberância, sei lá. Esse “medida” quem escreveu fui eu. Mas o prefeito quer ícones, esse é o tema, ícones arquitetônicos! Que polêmica bonita! … É óbvio que estes ícones não serão feitos nos anos que lhe restam. Os ícones são só pra tirar o foco do debate que importa, que é liberar campo pra especulação nociva no Centro de São Paulo.

Fui atrás das notícias e encontrei pouca coisa. Resumindo, o SECOVI patrocinou um projeto do arquiteto urbanista Jaime Lerner, que fez o plano de Curitiba. SECOVI significa Sindicato das Empresas de Compra, Venda e Locação de Imóveis. E já me vem uma primeira pergunta: Por que não é SECOVLI? Cadê o L de locação? Dado adicional é que Claudio Bernardes, ex-presidente do SECOVI (cadê o L?!!!), é conselheiro do prefeito em desenvolvimento urbano. O que é desenvolvimento urbano? Do modo como fazem qui em SP, é fazer lobby pra especulação imobiliária. De urbano mesmo ninguém desenvolve nada, seguimos subdesenvolvidos.

O projeto é mais um desses xavecos que os prefeitos mandam, dizendo que o centro será revitalizado, porque está uma bagunça, uma sujeira, é perigoso, e ali é nossa história, não podemos esquecê-lo, coitado, tanta coisa já se passou por ali, tem aquele viaduto antigo, aquele comércio antigo…


A imprensa anda noticiando que isso é falado desde Kassab, mas é mais antigo. Serra fez o projeto Bairro Novo, botou o escritório vencedor pra trabalhar, daí a prefeitura não pagou os caras, não implementou o projeto e o escritório quebrou porque investiu na produção e não recebeu. Depois a Marta quis revitalizar, colocou umas plaquinhas, uns painéis informativos, melhorou de leve, deu um respiro, mas hoje eles já foram todos comidos e digeridos por ratos e pombos, ninguém deu continuidade. Depois o Kassab disse que o centro ficaria uma beleza! Daí o Haddad também dizia algo parecido, acrescentando as obras de interesse social no pacote pra dar um tempero pessoal. Agora o novo prefeito diz o mesmo, de um jeito diferente, mas dessa vez o plano é encomendado pelo maior interessado no aumento de gabarito onde o metro quadrado anda desvalorizado. Lá é bom, já tem infraestrutura, tem tudo, é ótima pedida para investimentos em época de vacas magras. E pra conseguir isso é simples, basta contar uma história floreando em torno dos terrenos, fazendo umas perspectivas bonitas, com gente, ônibus, crianças segurando balões. É como um drible. Usa essa firula pra driblar o olhar mais atento enquanto a turma vai liberando o gabarito lá na frente. Liberado o gabarito é gol!, joga a firula fora e toca construir os prédios altos onde antes não podia.

Entendeu o problema do plano? O problema é que é xaveco! Ninguém vai concretizar este plano. Ou alguém aí acredita nesta promessa de um político? Sabe quando os artistas, na época da censura, enchiam a música, o filme, a peça de teatro de palavrões, pra censura cortar os palavrões e sobrar a peça que interessava? Pois bem, nesse plano aí o que interessa é liberar o gabarito lá no centro. Depois que isso for feito, ninguém faz o busão, a estrutura urbana não será melhorada, vai continuar a maior sujeira e é isso aí. Quando forem vender os apartamentos, os corretores vão dizer que é um plano de revitalização, as perspectivas serão usadas de novo, “está em estudo lá na prefeitura, logo logo estará pronto!”, dirão que vale a pena investir, aí vendem os apartamentos e todo mundo vai embora sem olhar pra trás. Sem ônibus, sem árvore, sem revitalização, sem suporte social, sem nada.

Dá pra fazer revitalização do centro com um bom projeto urbano? Claro que dá. Precisa de ícones arquitetônicos? Olha, na real não precisa, mas pessoalmente até que seria legal termos uns 2 ou 3 projetos contemporâneos pra refrescar nossa paisagem. Às vezes até ajuda a revitalizar, como no caso de Bilbao com o Guggenheim, mas mesmo este projeto contou com todo o suporte de um plano urbano muito complexo e implementado de verdade. Dá? Dá, mas a gente sabe que não é aqui que vão fazer esse plano acontecer de verdade.

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PS: Dos ícones falarei em outro texto.