A pedra portuguesa fica!
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A pedra portuguesa fica!

Henrique de Carvalho

01 Dezembro 2017 | 20h24

Ilustração do autor (Henrique de Carvalho) sobre foto de Fabio Motta/Estadão

Diante da recente polêmica envolvendo a remoção da pedra portuguesa das calçadas do Centro de São Paulo, o debate emerge mais uma vez barato e raso como sempre.

Realmente, ninguém se esforça para analisar com olhar mais abrangente e complexo os problemas e as soluções demandadas na gestão da cidade — qualquer gestão, qualquer cidade.

Condenamo-nos impulsivamente ao imediatismo danoso, plantado propositalmente pelos mal intencionados e, não sei porquê, as análises colhidas desse fenômeno são bem aceitas nas rodas de debate sobre qual dos imediatismos seria o mais correto. É como se o não pensar fosse um ganho e o papagaiar um mérito, uma economia, para podermos ir logo ao que interessa — que é o almoço, claro! Pensamos qualquer coisa como se estivessemos passando fome; é daí que vem nosso imediatismo irracional. É um vício de raciocínio justificável historicamente mas danoso como método, inclusive para refletirmos a respeito das cidades.


Vamos ao contexto, organizado de um modo bem didático, para não nos desviarmos demais do tema. Antecipo que, se há desvios necessários, sempre retornaremos ao tema.

[01] De modo geral, nunca algo é bem feito.

Isso é um dado que independe de partido e ideologia. É só incapacidade. Não conseguem fazer — ou não conseguimos –, processos são mancos e dão errado; não adianta nem espernear e dizer que tem gente se esforçando, pois mesmo que haja vontade não há o resultado. Aprendemos a nos contentar dizendo que pelo menos um pouco foi feito, uma parte foi feita, uma certa intenção de fazer se realizou mesmo que não tenha se realizado com propriedade e esteja bem longe da intenção inicial. Estamos conformados com o que é ruim e insuficiente.

Aí alguém lembrou de uma coisa que é bem feita e quer contestar a afirmação. Legal. Mas este exemplo é uma regra ou uma exceção? Sempre é exceção. Então deixemos de lado este caso específico e vamos à regra, falemos a partir dela. Adotaremos aqui o panorama geral, não o caso isolado. Diante disso, vamos incluir no mesmo pacote os serviços terceirizados, via licitação, tendo por referência a qualidade do asfalto da cidade, com o qual todo mundo se relaciona diariamente. Ele é tão ruim quanto as calçadas detonadas do Centro. Logo, pedir que alguém faça a calçada como pedimos para fazerem a rua não aumenta a qualidade do produto final. Pelo contrário, pode ser ainda pior.

[02] Não há nunca nenhuma manutenção, só consertos.

Primeiro pensemos na família etimológica básica da palavra, sem precisar ir pro grego ou latim. Manutenção e manter derivam da mesma raiz. Logo, manutenção é para manter o que se tem, como quando a pessoa leva o carro na concessionária a cada 6.000Km para que seja feita a manutenção preventiva (troca de óleo), evitando assim maiores problemas. Manutenção, portanto, não é consertar o que estragou, o que ruiu, o que caiu na cabeça de alguém. Também não é reforma. Manutenção é trocar o óleo, é pintar a parede porque já está na hora de refazer sem esperar que a pintura esteja desgastada, é varrer a calçada pro lixo não parar no bueiro, é corrigir aquele metro quadrado de pedra portuguesa que apresentou irregularidade. Fazendo isso, todo o conjunto continuará funcionando bem. A manutenção é muito mais barata do que o conserto, pois neste segundo o investimento é alto e de difícil assimilação pelo tecido da cidade, e só ocorre porque alguma coisa mal cuidada definitivamente estragou.

O conserto causa impacto negativo no trânsito, no comércio, no sono das pessoas, nos cofres públicos, na atração de investidores, no estímulo aos novos negócios, no desfrute da cidade. As ruas são paralisadas por muito tempo, há muitos sons horríveis de serra, britadeira, caminhões barulhentos, gritaria, trânsito interrompido, comércio prejudicado. Esse nosso desleixo com qualquer estrutura é um lixo cultural despejado na cidade e também dentro de nossas casas.

Pensando a casa, pensamos a cidade

Ninguém faz manutenção preventiva para que a casa não dê problema. Todo mundo constrói e deixa a coisa se desgastar, cultivando (como método) certa ilusão de que aquela estrutura será eterna. Então, sem que ninguém esperasse, um dia vem a consciência da perecibilidade apresentada na própria matéria, exigindo uma intervenção enorme para voltar a funcionar. Ninguém manteve, ninguém preservou, ninguém guardou o dinheiro, e agora? Bom, como ninguém faz a intervenção enorme, por custar caro, remenda-se o problema com band-aid e chiclete, e “bota pra funcionar”! Naturalmente, o remendo mal feito resultará em nova demanda por mais reparos ali na frente, numa soma de malfeitos, até que alguém diz “Derruba e faz um novo que é mais barato”. Claro, depois que estragou, é mais barato mesmo fazer o novo.

Durante todo esse tempo, todos os envolvidos conviveram com problemas, desconfortos com os quais não precisariam conviver, perdendo uma qualidade de vida que poderiam não ter perdido. Buracos, poças, sujeira, malcheiro, feiura, tropeços, relaxos. E ninguém fez nada. Ninguém precisa aceitar estes percalços promovidos pela má gestão da cidade.

A falta de manutenção está sempre associada à falta de planejamento. Quando a manutenção é feita, não precisamos chegar lá na frente com um conserto a furar nossos bolsos. Se não há o impacto negativo citado acima, tudo fluirá positivamente no trânsito, no comércio, no sono das pessoas, nos cofres públicos, na atração de investidores, no estímulo aos novos negócios, no desfrute da cidade.

Os exemplos domésticos são mais ao gosto do brasileiro. Nós só entenderemos a importância da coisa pública depois que entendermos que ela é tão nossa quanto os assuntos domésticos, e que ela é gerida tal como fazemos a gestão da casa como a primeira estrutura que nos cabe, ou seja, de maneira bem precária.

Pois voltemos ao calçamento do Centro de São Paulo.

A culpa não é da pedra portuguesa

Este assunto já foi debatido há mais de dez anos atrás, quando da polêmica remoção das pedras portuguesas da Avenida Paulista, sem nenhum pingo de esclarecimento a respeito do tema. Hoje estamos todos debatendo o mesmo debate com a mesma burrice.

Sejamos ao menos econômicos. Se for pra ficar nesse debate raso, alguém aí pegue o o que foi dito a respeito das pedras da grande avenida, faça um apanhado geral das bobagens e troque Avenida Paulista por Centro de São Paulo. A discussão estará pronta, ninguém se gasta, quem quiser que leia e está tudo resolvido. Não precisamos dizer o que já foi dito.

Para sermos sérios, é preciso avançar no conhecimento dos sistemas implicados. Sistemas construtivos, problemas incidentes, atores envolvidos e como tudo isso se arranja em torno do tema.

A culpa não é da pedra portuguesa e nem da forma como ela é assentada — tradicionalmente, com pedras postas sobre uma base de areia bem compactada. Este sistema de calçamento é excelente e, em Portugal, há inúmeros exemplos provando que, quando é feita a manutenção preventiva (ou corretiva, diante de alguma novidade que aparece), o sistema funciona muito bem.

A culpa de nosso calçamento roído é do desleixo brasileiro com a estrutura geral das cidades. Nossas cidades funcionam muito mal porque funcionam remendadas com chiclete. Isso se aplica a cada item de suas estruturas: arborização, manutenção de praças e parques, quantidade de áreas verdes, iluminação urbana, sistemas de transporte, infraestrutura básica de água, esgoto e energia elétrica, semáforos que apagam diante de qualquer chuvisco, asfalto zuado, calçadas que são verdadeiras trilhas selvagens, um monte de postes desnecessários, placas dispostas de qualquer jeito, bagunça na fiação dos postes, lixo no chão, lixo no ar, lixo grudando na cara.

Sim, o lixo

O lixo é mesmo uma boa metáfora. Nossas cidades funcionam como se estivéssemos usando um saco de lixo como sofá e reclamássemos da má qualidade do estofado. Não é sofá nem há estofado, é apenas lixo! A incoerência que permeia nossos debates a respeito da cidade se dá neste mesmo nível. Estamos sentados em cima do lixo e reclamando da qualidade do estofado. Somos ridículos posando de sérios.

Realmente nossa cultura é meio podre e, se a culpa não é da pedra portuguesa, de quem seria? Hoje está na moda dizer que não estamos procurando culpados, como se os atos falhos não fossem mais provocados por ninguém. Balela. Na cidade nós todos somos os culpados. Nós somos incompetentes para colocar em funcionamento os sistemas ocupados em gerir a cidade. Nós moramos em apartamentos feitos fora da lei, em casas cujas calçadas são parte da casa e não parte da rua. Para isso, para nosso desleixo com a cidade, não há cimento que resolva.

E qual é a da pedra?

A irracionalidade de projetarmos nossa incompetência no material, para culpá-lo ao invés de nos culparmos, me fez levantar os principais problemas apontados por quem é a favor da remoção das pedras portuguesas e comentar caso a caso. Mais uma vez veremos que não faz sentido prático a remoção das pedras.

Junta água? Só se foi mal instalada, o que compromete todo o conjunto assentado, ou não recebeu a manutenção necessária para corrigir este problema quando era pontual. Então por quê dizem que junta água? Porque vemos um monte de poças e avaliamos que a culpa é do material, não de quem faz — ou não faz, quando se trata da falta de manutenção.

Elas soltam? Só se foi mal instalada, o que compromete todo o conjunto assentado, ou não recebeu a manutenção necessária para corrigir este problema quando era pontual. Então por quê dizem que elas soltam? Porque vemos um monte de buracos, remendos malfeitos e avaliamos que a culpa é do material, não de quem faz — ou não faz, quando se trata da falta de manutenção.

Mas ela não fica encardida? Assim como nós humanos podemos estar ou não encardidos, no mundo das pedras de piso também há produtos que evitam a impregnação de resíduos que causam este aspecto encardido criticado por alguns. Uma coisa é fato: não se trata de um produto plástico industrializado e a utopia da eterna cara de novo não se realizará nem na pedra e nem em nossas faces. Mesmo com muita lixa e botox, será impossível. Diferente dos humanos, aplicação de produtos protetores nas pedras é bem mais simples e barata do que fazer um piso cimentado ou asfaltado no mesmo lugar. Como ninguém teve este cuidado, não houve a manutenção necessária para corrigir este problema quando era pontual e hoje vemos o piso encardido. Avaliamos novamente que a culpa é do material, não de quem faz — ou não faz, quando se trata da falta de manutenção.

Acrescente-se aí mais um fator: a cidade já é suja e poluída. Logo, se não atacarmos as causas, não adianta culpar o material por sofrer as consequências. A cidade não é suja e poluída por designação divina. Nós é que sujamos e poluímos. São pessoas fazendo isso e as mesmas dizem depois que a culpa é da pobre pedra portuguesa, toda encardidinha, lá no centro da cidade. Coitada.

Vai cimentar? Vai mesmo? Tem certeza?

Vou dizer algo importante. Do cimento nós não precisamos, ou precisamos menos, bem menos. Isso mesmo, precisamos menos. Pense a vida com menos cimento que ela já começa a melhorar.

Nosso fetiche pelo cimento deve ter raízes inconscientes, profundas, conectando-se à superstição de que ele será liso, plano, perfeito, incorruptível e que, depois de aplicado e seco, seu resultado durará eternamente.

Assim como raciocinamos como se estivéssemos com fome, como se estivessem a roubar nossa comida, a crença numa ilusão do eterno é mais um método brasileiro para seguirmos incompetentes.

Cimento e concreto são simulacros de eternidade e de durabilidade, pois é tudo o que esse tipo de material não é, mas pensamos como se fosse. Acreditamos e concebemos como se fossem eternos, mas não são e sabemos disso. A realidade é que eles se desfazem com facilidade, ainda mais no piso. Além disso, o cimento é um lixo de alto impacto ambiental, é de difícil manutenção (e cara!) quando feito ao modo medieval como fazemos, junta mais sujeira e só não o vemos como encardido porque ele já é cinza, já nasce na cor da sujeira.

Só ganha com isso quem vende o cimento e o serviço de instalação dos calçamentos neste material. E isso não é geração de empregos, pois o emprego gerado no ciclo de aplicação do cimento para o reparo das calçadas pode ser o mesmo emprego gerado no ciclo de reparo e adequação do piso de pedras portuguesas, mais bonito, mais simples e mais durável. Com a economia gerada pela manutenção de nossos mosaicos portugueses, ainda sobrará um bom dinheiro para, aí sim, fazermos uma calçada em material moderno, permeável, que pode até ser em cimento (mas com tecnologia de resultados integrada), implementada lá nas quebradas onde sequer existe calçada decente na qual as pessoas possam caminhar.

De tudo isso, de tudo o que já foi debatido — e só estou aqui repetindo o debate sobre o cimento na Paulista –, fica sempre sem resposta uma indagação propositiva que sempre fiz nesse contexto. É comum vermos em fábricas aqueles carrinhos que jogam água, esfregam, limpam e já secam o chão. Fica um sujeito pra lá e pra cá, o dia inteiro, limpando o chão da fábrica. Esses carrinhos são bem eficientes, senão as indústrias e multinacionais não usariam, pode ter certeza. Por que a prefeitura não investe em desenvolver, junto com a indústria, um carrinho desses adaptado para lixar, lavar, secar e impermeabilizar pedras portuguesas? Seria tão mais prático e inteligente. Poderíamos inclusive ter discos de ranhuras para tornar o piso anti-derrapante. Para manter, bastaria que viesse o carrinho de lavagem de tempos e tempos e o próprio funcionário mapearia os trechos a serem reparados no processo de manutenção do piso.

Deste modo, não perderíamos todo o trabalho já feito para calçar muitos quilômetros quadrados de pedra portuguesa em todo o país, preservaríamos a história local e aplicaríamos o dinheiro com real eficiência em outras obras realmente necessárias, como implementar calçadas e levar o Estado lá nas quebradas.