A floresta vai comer São Paulo
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A floresta vai comer São Paulo

Henrique de Carvalho

22 Dezembro 2017 | 23h30

Ilustração da utopia de Henrique de Carvalho para matéria de Edison Veiga (Divirta-se/Estadão).

Edison Veiga solicitou-me uma imagem, um presente de Natal para São Paulo, expresso na ilustração de uma utopia, minha, sobre a cidade.

Logo pensei numa série de coisas. Enterrar as vias entre o Ibirapuera e MAC, retomando o projeto original de Oscar Niemeyer que estendia o parque pela cidade; retirar as grades dos parques, para que pudessem ser usados como caminho com entrada por qualquer lado — afinal, quer coisa mais absurda do que existir uma grade e uma calçada entre um parque e a rua? A calçada deveria estar dentro do parque(!); pensei em recriar rios, não corguinhos cenográficos, mas rios caudalosos mesmo, inundando vales hoje ocupados, ou escorrendo por pirambas hoje pavimentadas; pensei em reduzir o barulho, reduzir a poluição, educar os motoristas, arborizar melhor a cidade, ou melhor, arborizar a cidade; limpar as ruas; regularizar calçadas.

Deparei-me então com a constatação de meu ridículo. Minhas utopias para São Paulo eram do tipo “ter bancos nas praças”. Oras, isso não é utopia, isso é o mínimo! Tirar as grades dos parques é o óbvio! “Mas não dá, porque tem a violência…”, alguém dirá. Por quê não dizemos “Tirar as grades? Claro que dá! Afinal existe um sistema de segurança muito eficiente no parque.” Parque com grade e calçada em volta, do lado de fora, isso sim é um absurdo, isso sim é que não dá, isso sim é violência. Nosso pânico da violência é que é um absurdo.

Notei pois que estava propondo coisas até normais em oposição à distopia que é nossa realidade. Não estava propondo um sonho utópico no real sentido da palavra utopia. Propunha reverter a distopia no sentido de proposições civilizadamente aceitáveis.

Então lembrei de um sonho utópico mais recente — ou, pelo menos, com mais cara de utopia. Gostaria de ver SP dando um reset em tudo o que foi feito nas Marginais Pinheiros e Tietê, removendo avenidas, fábricas, carros, esgoto, produtos químicos pesados, pisos cimentados, lançamento de sujeira no rio, fumaça, carros, neurose, afastando tudo isso de perto da água e devolvendo as margens expandidas dos rios (a Terra) pra mata ali renascer. A partir dali, reflorestaríamos a cidade. Assim surgiu a ilustração.

Isto se conecta a uma utopia pessoal, que é sonhar com um Brasil de cidades-floresta, com bichos andando nos quintais, nas calçadas e pulando entre as árvores. Afinal, se existe a agrofloresta, onde os agricultores fazem o cultivo na floresta, eu sonho com uma urbe-floresta, onde a gente teria uma cidade, em harmonia com a natureza, feita no meio da mata.

Em minha utopia, pararíamos nossos carros em atracadouros, no melhor estilo “car free system” e tomaríamos um trem aéreo que atinge 300Km/h em 10 segundos, transportando pessoas por cima da floresta com rapidez, conforto e eficiência por longas distâncias, tendo poucas e estratégicas paradas. Alguns prédios emergiriam da mata, mas não veríamos as ruas a partir do alto — todas tapadas pela vegetação e a maioria transformada em parques. A fauna brasileira tomaria posse novamente do rio e de sua floresta.

Eu sei, não teríamos tantas araras por aqui — pelo menos acho que não –, mas queria falar, com a imagem, de uma utopia mais brasileira, mais arara e menos águia, sem descendência romana.

Cansei de dizer para os gringos que meu país não é só floresta, alegando que também somos cinzas, feios, feitos de pedra, cimento e fumaça. Qual a beleza de sermos assim como eles? Isso sim é que é ser colonizado. Tenho vergonha de não corresponder ao estereótipo gringo a respeito de uma suposta vida tropical, enfiada na floresta, romântica e original. Não quero agradar os gringos por ser submisso, mas sim porque gostaria de poder responder dizendo “Sim, onde eu vivo tem jacaré na calçada e macaco no jardim! Lá tem tucano na janela de casa e araras no telhado! Andamos pela cidade de pássaros coloridos empoleirados nas árvores.” Isso é que seria legal. Seríamos uma cidade distinta do modelo greco-romano que afasta (suprime mesmo) o ecossistema original para preservar o homem em ambiente artificial; poderíamos, diferente deles, ser a reconciliação do humano com a natureza e como parte da mesma. Fabricaríamos chuva e ar-puro sem consumir eletricidade, apenas plantando árvores e deixando-as se multiplicarem à vontade. Por quê não fazemos isso já? O que nos impede de plantar árvores?

Em minha utopia, roendo o concreto e plantando árvores, recuperaríamos naturalmente o verde, as nuvens, a água, os bichos e o céu estrelado. É esta minha utopia para São Paulo, um modelo não-romano de ocupação do território que vai ensinar o resto do mundo a viver na floresta.