A arquitetura também perdeu Stephen Hawking
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A arquitetura também perdeu Stephen Hawking

Henrique de Carvalho

09 Abril 2018 | 17h34

Stephen Hawking em 2013, durante o lançamento do filme sobre sua vida.

Em 14 de março de 2018 morreu Stephen Hawking.

O que isto significa para nós arquitetos e urbanistas?

Oscar Niemeyer costumava se reunir com os amigos às quintas-feiras, para bater papo e ter aula com alguns deles. Não só em seus projetos buscou reunir-se com pintores, escultores, paisagistas e artistas em geral para fazer sua arquitetura integrada às outras artes e ao pensamento crítico mais elaborado. Convidava para estas reuniões poetas, músicos, artistas plásticos, um ou outro arquiteto, físicos, engenheiros, jornalistas.

Eu nunca o conheci pessoalmente, um arrependimento que levarei pra vida, mas sempre procurei saber do que se passava em seu escritório. Das últimas aulas que ouvi falar, me parece que era com Marcelo Gleiser quem ia lá explicar os mistérios do universo àqueles senhores. Somadas ali as primaveras de cada um, talvez a distinta platéia somasse mais de mil anos de experiência acumulada.

Por isso, a morte de Stephen Hawking significa muita coisa.

Besteira é pensar que arquitetos e urbanistas estão preocupados com acabamentos de parede, escavações de terreno, modelos de torneira, tipos de telha, rotatórias, vias de mão única, VLTs, pisos drenantes. Com essas coisas estão preocupadas também as pessoas comuns, que não fazem parte do nosso metier. Isso é a técnica que usamos para construir.

Os arquitetos, arquitetos mesmo, estão preocupados com o sentido que se pode dar a algo. Com isso as pessoas comuns estão menos preocupadas, ou tem pouco domínio sobre o tema. Ocupam-se disso os arquitetos, os poetas, os escritores, escultores, pintores, músicos, atores, diretores de cinema, enfim, artistas de qualquer modalidade.

Quando se vai um cara como Hawking, por mais distante que seja, sentimos muito porque éramos próximos em nossas intenções de dar sentido. Há uma linha invisível que une Einstein, Oscar Niemeyer, Alexander Calder, Italo Calvino, Mira Schendel e Stephen Hawking.

Todos eles, suponho, furaram a barreira do real convencional. Deram um passo pro lado, sem querer ofender ninguém, e saíram do universo da representação para descobrir a magia que constrói o sentido. Eles assumiram o controle do código, viram signos girar, desmancharam o estabelecido e partiram para a confecção de novas tramas ao lidarem com uma espécie de material particulado e suspenso.

Einstein fundiu o espaço e o tempo, fazendo da velocidade fator determinante para os arranjos da matéria. Deu ao tempo um relevo, distensões, distorções e colocou-o em trama interdependente com o espaço que pode tanto se adensar como desfazer-se dentro das negras gargantas do universo. Oscar Niemeyer tratou de tensionar a forma, distendendo lajes como tecidos, criando tensões que se resolviam em si mesmas e, de tão tensas, se estabilizavam na esbeltez de suas peças curvas, como o percurso de uma flecha namorando a gravidade.

Niemeyer, quando exilado, juntava-se a Dalí e Picasso para assistir o circo de bonecos apresentado por Calder em sua casa. Oscar sempre gostou de andar com essa turma mais exigente. Calder inventou os móbiles, instáveis, em equilíbrio dinâmico, versão condensada da teoria da complexidade para crianças, colocando suas esculturas para dançar ao invés de posar para sempre na mesma posição. Há estudos do Niemeyer com esculturas do Calder para os projetos de Brasília.

Mira Schendel sobrepôs acasos e borrões, fez manchas, botou a matéria densa para desfazer o espaço, diluir nossa imagem em impressão de presença, e fez da ausência presença quase sólida nos hiatos de seus desenhos.

Da coexistência de conflitos inconciliáveis.

A presença só expulsa a ausência em Newton. Em Hawking elas coexistem e não são necessariamente antagônicas. Não seria a cidade também uma expressão da coexistência de conflitos inconciliáveis? Deve haver, como no universo, uma forma de pô-los em harmonia a partir do caos, uma harmonia dinâmica, em movimento, gerando a beleza diante da qual somos pequenos demais.

Desta vez a ausência de Hawking se fez presente. Não teremos mais ele a nos contar novidades acerca do cosmo. Sua ausência é dura, sólida, como é a ausência de Einstein, Niemeyer, Zaha Hadid, Alexander Calder, Burle Marx, Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Ferreira Gullar, Mira Schendel, Amílcar de Castro e Eduardo Coutinho.

Estamos em tempo de ver os marinheiros mais experientes deixarem o barco, sem ter ninguém pra seguir seus planos de viagem. A morte deles sem sucessão à altura só denuncia a dureza de nosso vazio, os buracos cascudos e impreenchíveis ao nosso redor, índices do declínio de nossa civilização como é a perda da qualidade do gosto médio, por exemplo.

Tudo isso interessa muito aos arquitetos e urbanistas. Temos de lidar com a dureza e a presença de tais ausências.

Por mais de cinquenta anos Hawking contrariou a lógica, mantendo-se vivo, dobrando-se enquanto dobrava também o tempo sobre seu espaço, distendendo expectativas negativas a seu respeito na longa duração de suas pesquisas. Mas a incerteza cósmica é implacável, e nos comprime até não termos mais alternativa e cedermos à força que nos fará ausentes do cotidiano banal.

Hoje ele integra novamente a massa da ausência cósmica, uma ausência compressora e simultaneamente aspiradora.

Foi-se Hawking, como um dia se foi Rembrandt, e não há quem possamos pôr no lugar. Não há peças de reposição para a genialidade.

Por tudo isso a morte de Stephen Hawking interessa profundamente aos que constroem sentido.

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