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Xiii, morri!!!

Haisem Abaki

10 Julho 2015 | 13h09

Olha, vou direto ao assunto, sem enrolação. E que ninguém se assuste, hein… Sonhei que tinha morrido. Não cheguei a me ver na cena. Creio que era eu pelos comentários das pessoas. É difícil ter outro cara com esse nome.

Mas acordei na boa, sem medo, achando graça de estar vivo. Tentei resgatar a lembrança do que se passou sobre o meu travesseiro… Não sei se foi de velhice, doença, acidente, chatice… Desconheço se foi trabalhando até o fim no que gosto. Ou de tanto correr…  Ou por amar muuuito… Ah, melhor não saber o motivo mesmo.

Deve ter sido efeito de aplicativos (nem sei se são aplicativos) que “simulam” a vida dos habitantes desse mundo chamado rede social. Fiz vários “testes” nos últimos dias, apenas pelo prazer da besteira. Só que não compartilhei nada. Quase nada… O único que divulguei foi um que me apontava com aparência de 42 anos. Afinal, nove anos a menos é uma baita diferença.

Em outra análise “criteriosa”, a resposta foi que vou morrer aos 91 anos. Caraca, mais 40 por aqui! Pelo menos fiquei sabendo que serei um milionário aos 78! Treze anos pra curtir a riqueza.

Veio então a imagem do meu pai. Ele dizia que a hora de cada um pode chegar a qualquer momento, num período que varia de um segundo a algumas décadas. Por isso, era melhor viver intensamente cada dia, como se fosse o último. E não dormir com mágoa de ninguém pra evitar o risco de não acordar e ir embora sem fazer as pazes.

Já que é assim… A alguém especial (você sabe que é você), deixo minhas desculpas pelos exageros, teimosias e excesso de sinceridade. E por não ser muito bom em consertar as coisas. Esse negócio de alicate, parafuso e chave de fenda sempre foi complicado pra mim.

Perdão ainda por algumas ausências e impaciências. E todas as vezes que queimei o arroz só um pouquinho foi sem querer, tá? Agora já sei a quantidade certa de água pra não virar papa. É,  isso já não tem mais importância…

Minhas desculpas também a quem talvez esperasse algo mais de mim, uma insistência, uma atitude pra comprovar minhas palavras. É só o meu modo “sutil” de ser e de falar com os olhos. Não significa indiferença, viu? Se ficar vivo mais um tempo posso tentar dar um jeito nisso.

Às duas figurinhas que ajudei a “botar no mundo”, peço que relevem as reclamações do barulho quando precisava dormir pra acordar de madrugada. Hoje eu sei como foi bom conviver com vocês tagarelando o tempo todo. E me desculpem também por ter sido ranheta com big sanduíches, batatas fritas e refrigerantes. Ah, sim, e ainda pelos palavrões nos jogos do Palmeiras e os meus insanos ataques “gulocidas” aos pacotes de balas de goma e às caixas de Bis e Sucrilhos.

Para aquela que me deu a vida, reconheço que fui meio quieto e radical em vários momentos. Perdão. E também por não ser um filho com uma “profissão normal”, com horário comercial e fins de semana livres.

Aos amigos, se a minha partida for por agora mesmo, peço compreensão pelo sumiço. Sei que fiquei escondido depois que meu pai foi embora. Cometi um erro ao sofrer sozinho e parecer forte. Se o sonho que contei lá em cima não for para esses dias prometo retomar a vida de antigamente.

Aos queridos ouvintes e colegas de trabalho, sou grato pelo apoio e pela fidelidade. Peço desculpas por falar muito, estourar o tempo e às vezes descontentar um ou outro com opiniões políticas. Aproveito pra esclarecer que não sou “azul” nem “vermelho”. Já fui chifrado pelos dois. E quem não foi? Como? Alguém ainda não sabia? Que cada um passe a mão na sua testa aí…

Também preciso fazer alguns pedidos pra quem for cuidar das últimas homenagens. Quero tudo muito simples, mesmo que eu fique rico aos 78 anos, como “previu” aquele teste bobo. Podem doar o que tiver serventia pra alguém que esteja precisando. Só avisem que o coração era de um cara intenso e exagerado, mas os pulmões estarão limpinhos.

Como sou de Gêmeos, deixo para as pessoas mais próximas a definição entre os tais sete palmos de terra e a cremação. Resolvam no par ou ímpar ou no Janken-pon. Não tenho preferência neste momento. Mas, se for pra virar pó, que seja lançado lá do alto da Serra do Itapeti, que é pra ficar onde eu nasci.

Ah, mais um detalhe. Nada de velório com choradeira e tristeza, seja como for a partida. Dá pra alguém cuidar da parte musical? É só pegar umas músicas do meu celular. Por favor, com prioridade para as mais agitadas, como as do filme Grease. Olívia Newton-John e John Travolta mandando ver em Summer Nights e You Are The One That I Want pra eu chegar animado do lado de lá.

Bandas dos anos 80 também serão bem-vindas. Titãs, Capital, Legião, Barão Vermelho, Ira, Ultraje, RPM, Biquíni Cavadão, Engenheiros do Hawaii, Nenhum de Nós… Imagino que alguém vai fuçar o celular e encontrar as músicas de Cinema Paradiso e Doutor Jivago. E o meu ídolo Omar Sharif partiu enquanto eu escrevia estas recomendações fúnebres… Sim, são trilhas que adorei a vida toda, mas só aceito que sejam tocadas se o ambiente estiver bom, sem choro. Pra ajudar, pode rolar um Coldplay, com Viva La Vida. Todo mundo no velório fazendo corinho na hora do “oh, oh, oh, oh, oh”!

Sobre o epitáfio, se houver túmulo, não me ocorre nada agora. Uma frase de duplo sentido seria uma boa pedida. Peço aos amigos que bolem algumas e façam uma votação. Que vença a pior! Então é isso… Nada mais a declarar.

Bom, mas se o aplicativo estiver certo e me restarem ainda umas quatro décadas, já aviso a todos que não vou viver com meus arrependimentos. Bola pra frente. Serei intenso e exagerado em tudo. Amando, trabalhando, acertando, errando, fazendo bobagens, torcendo, xingando, rindo, chorando, teimando… Tudo de novo. E, cuidem-se minhas eternas crianças… Vou continuar atacando pacotes de balas de goma e caixas de Bis e Sucrilhos!