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Vozeirão, pezão e coração

Haisem Abaki

20 Abril 2017 | 11h24

Agora, às 11h24, faz 14 anos (e 9 meses) que amo você, sujeitinho. Nossos olhares se cruzaram pela primeira vez num Domingo de Páscoa. Os olhos grandes logo me chamaram a atenção.  A vasta cabeleira também. Olhudo e cabeludo! E ainda me impressionei com o choro, que na primeira ouvida me pareceu em tom grave. Mas os pezinhos me causaram mais encantamento. Tomei o cuidado de observar, ansioso, se você não tinha dedinhos encavalados como os meus. Que alívio de ver que estavam todos certinhos.

Eu estava bem pilhadaço naquele dia. Só me acalmei com Big Mac, batata frita e Coca-Cola. E, claro, com muito ovo de Páscoa. Mas tinha que correr pra casa pra ver a sua irmãzinha de quatro anos. Ela quis ir à maternidade. E foi. E quis ir ao cartório comigo pra fazer o registro de nascimento. E foi. O funcionário perguntou se era Vitor ou Victor. E ficou sem o “c” mesmo.

Tenho muitas cenas gravadas numa filmadora que comprei nas Casas Bahia, carinha. Putz, eu sou um enrolão mesmo. Já faz tempo que prometi converter as fitas em material digital. E nada! Vou cuidar disso. Lá tem a sua chegada em casa e a sua irmã pedindo pra carregar você. Ela te deu colo no sofá enquanto a gente se preocupava estendendo as mãos para qualquer emergência que pudesse acontecer.

Cara, você era um tremendo mamão. E tudo terminava nas fraldas que eu comprava aos montes. Uma amiga da sua mãe também percebeu no seu choro que você tinha “voz grave”. E isso foi se confirmando enquanto você crescia. Aos 14 anos a minha era de taquara rachada, mas a sua continua firme e forte.

Dava pra perceber o seu vozeirão enquanto você tomava banho e ficava berrando o nome de cada parte do corpo que estava lavando. Cabeça, rosto, barriga, costas, braços, pernas… E, nas suas próprias palavras, o piu-piu e o bumbum. Até o dia em que a rotina foi quebrada quando você gritou que estava lavando “o sovaco da perna”. Corremos para o banheiro pra ver. E o tal “sovaco da perna” era a virilha.

A sua voz grossa já deixou a gente em situações complicadas. Como nos primeiros tempos sem a fralda. Você ficava bem no troninho verde de plástico, mas não gostava de fazer cocô. E dizia isso em alto e bom som para o prédio inteiro ouvir. Foi difícil, carinha. Você só relaxou quando o Porquinho Astolfo do Cocoricó telefonou pra você e disse que “fazer cocô era muito bom”. Tenho até hoje a lembrança dos seus olhos arregalados quando confessei meu papel suíno.

Você ainda fala pouco, rapaz. Mas quando fala vai direto ao ponto, É sincero, generoso, confiável, amigo, companheiro. Só não gosta de dividir chocolate e Mentos, mas eu entendo. E quando você abre a boca todo mundo para pra ver de onde vem o vozeirão.

Eu já devia ter me acostumado com isso. Afinal, tenho um comentaristazinho de futebol com voz de trovão quando estamos juntos torcendo pelo Palmeiras. Mas me espantei na loja na semana passada quando fomos comprar sua nova chuteira. Eu estava lá, meio distraído, quando ouvi uma voz grave dizer “quarenta e um” para o vendedor. Só acreditei quando apalpei e vi que o seu dedão estava apertado mesmo na quarenta. Os seus pés estão querendo competir em tamanho com o seu coração, carinha. Você só tem 14, mas o seu caráter é 41. Obrigado por ser a minha versão melhorada. E por me fazer renascer a cada dia. Só um sujeitinho que nasceu num Domingo de Páscoa poderia fazer isso.

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