As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Você celebra o Natal?

Haisem Abaki

24 Dezembro 2017 | 10h47

Esta é uma pergunta que ouço desde criança. E eu sempre respondia que sim. No começo eu não entendia muito bem a curiosidade dos colegas da escola. Aos poucos, fui compreendendo a razão da insistente dúvida, às vezes vinda até dos professores. Afinal, eu era um muçulmano estudando em colégio católico.

Com o tempo, os questionamentos ganharam maior grau de complexidade e eu passei a me aprofundar nas respostas. Diante de um “por que” eu, depois de uma minuciosa elaboração de raciocínio, devolvia com um “porque sim”.

Mais tarde, soube que outros muçulmanos também achavam esquisito a gente ter árvore de Natal lá em casa. E houve alguém mais incisivo, que cobrou do meu pai uma explicação por eu estudar em escola católica e frequentar normalmente as aulas de catecismo. A resposta singela foi “porque aqui não tem escola islâmica”. Simples assim. Na cabeça dos meus pais, o filho deveria ter uma base religiosa na escola. Não tinha islâmica? Então que fosse cristã mesmo.

Era Bíblia na escola e Corão em casa. E algumas histórias se cruzavam e eram muito parecidas. Mas enquanto não entendia bem o que aquilo significava, eu aproveitava essa minha “vida dupla” de fé. Meus colegas do colégio só tinham a Páscoa e o Natal. E eu, sortudo, além de ganhar ovos de chocolate e a generosidade do Papai Noel, recebia presentes no fim do Ramadã e no Dia do Sacrifício, as duas grandes celebrações islâmicas. Isso sem contar os deliciosos doces, de pudim a uma espécie de bolinho assado e recheado chamado de mamoul de tâmara, o meu preferido. Na falta da fruta do Oriente, difícil de  encontrar e às vezes muito cara, o recheio era de goiabada mesmo. Puro  sincretismo religioso e gastronômico!

A maturidade foi me mostrando que existem, sim, diferenças entre as religiões. A crucial é que o muçulmano considera Jesus um dos profetas mais importantes, mas não o cultua como Filho de Deus. A descoberta me gerou alguns conflitos internos. Mas meu pai, com vocação para a oratória, sempre dava mais valor às convergências entre as crenças e ganhava o respeito e a admiração de amigos cristãos que iam à nossa casa no Natal e em outras datas.

Nunca fui obrigado a fazer nada que não quisesse. Frequentei a mesquita com ele por um bom tempo. Até os 19 ou 20 anos, eu acho. Não sei direito porque parei. Tá bom, eu sei. Pra falar de um jeito educado, achei que ali algumas pessoas “cuidavam” mais da vida do semelhante do que da própria vida. Um dia, alguém foi cobrar o senhor Mohamed pela ausência do filho nas orações de sexta-feira e ele respondeu com um “pode ficar tranquilo porque ele é muçulmano nas coisas que ele faz”. Diante do silêncio do interlocutor espantado, afirmou que “a religião é o que a gente faz” e arrematou dizendo que “toda religião é boa”.

As lembranças vieram assim, cristalinas como se fossem de ontem, quando encontrei um conhecido na padaria. Ele se despediu dizendo “Feliz Natal”. Depois voltou, pediu desculpas e perguntou se havia cometido uma gafe. Respondi que não e ouvi um “mas você celebra o Natal?”. Então, contei toda essa história do aprendizado de respeito e tolerância que tive com meus pais.

Acho que meu repertório evoluiu um pouquinho e já consigo ir além do “sim” e do “porque sim” daquele menino tímido que eu fui. Mas tem uma coisa que não mudou. Esse negócio de quatro presentes é muito bom! Melhor ainda se cada um de nós, com suas ações, fizer a vida ser mais doce. Que Deus seja louvado em todas as formas, crenças e sabores. Sejam de tâmara ou de goiabada.