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Uma decisão tomada na lata

Haisem Abaki

01 Março 2013 | 23h06

Nos últimos dias, tive a oportunidade de rever gente querida e matar saudades. No primeiro reencontro, estavam pessoas distantes por mais de 10 anos. Beijos, abraços, muita conversa e a constatação: “Você continua o mesmo, não envelheceu, está magro como sempre…”.
No segundo, amigos com pouco mais de dois anos de falta de convivência. Beijos, abraços, muita conversa e a constatação: “Você está ótimo, emagreceu, o que você fez?”.
Mais tarde, diante do espelho, comecei a pensar naqueles “dois eus”. Minha filha ajudou um pouco na regressão à infância. “Pai, a vovó disse que você comia batata frita e tomava refrigerante todos os dias… Você que era feliz!”.
Sim, ela tem razão. Eram outros tempos, sem as preocupações naturebas e alimentarmente corretas de hoje. Sempre fui uma fofura de pessoa. Desde bebezinho, quando minha mãe se orgulhava do gorduchinho que exibia pras amigas.
E assim continuei na adolescência, que também teve muito sanduíche e massa, principalmente pizza. Mas nunca fui gooooooooooordo. Minha mudança começou depois do casamento, aquele negócio que dizem que engorda…
Comigo foi diferente porque “a nova dona do meu estômago”, apesar de ser uma craque na cozinha, impôs algumas restrições, principalmente às gorduras e aos refrigerantes. O que era diário passou a estar na mesa a cada 15 dias ou nos fins de semana.
Não sei exatamente quando comecei a perder a mão no garfo. Acho que isso deve ter começado há uns seis ou sete anos, com mais trabalho e menos vida. Alimentação fora de casa, horários indefinidos, pressa, falta de tempo, o abandono das atividades físicas… Tudo junto, misturado e embarrigado.
Em 2010, resolvi dizer “não” a algumas “situações” que me faziam mal, passei por exames cardiológicos e o médico disse que eu precisava emagrecer de 10 a 12 quilos. Estava com 82… Mudei a alimentação e retomei as caminhadas, depois transformadas em corridas. E aí virei esse quarentão com setentinha de agora.
Pensando nisso tudo ali no espelho, me perguntei se valeu a pena. Fui um garoto feliz à base de batata frita e refrigerante e hoje sou um chato quase natureba, que impõe regras aos próprios filhos. Eles quase têm de implorar por um refrigerante no supermercado ou no restaurante…
De repente, apesar de ser um cara leve, comecei a ficar com a consciência pesada e me deu vontade de voltar a ser aquele moleque cheio de calorias e que tinha todo o gás do mundo. É isso. Não quero mais ser esse sujeito tão vegetal, leguminoso e aguado. Vai ser um “liberou geral” pra mim e pras crianças também.
A decisão está tomada e já planejei como vai começar a transformação. Só estou à espera de um sinal. Voltei a degustar refrigerante a cada 10 ou 15 dias e vou cair na farra pra valer assim que encontrar meu nome naquela latinha. Já estou até vendo a cena… O garçom chega, põe a dita cuja na mesa e eu finjo espanto ao ver escrito lá, com letras garrafais: HAISEM. E não adianta o patrulhamento dos politicamente corretos de plantão. Já resolvi que quando isso acontecer vou beber feito um JOSÉ. Comigo é assim mesmo, na lata.
………..
Entro numa nova fase do blog, agora aqui no Estadão. Agradeço à direção da Casa pelo espaço e pelo apoio. Também sou muito grato a todos que me acompanharam nesses cinco anos de publicações despretensiosas e espero que a gente possa conversar por aqui.