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Um segundo a mais

Haisem Abaki

03 Julho 2015 | 11h03

Redução da maioridade penal? Delação premiada? A popularidade da presidente em queda? Dilma e Obama cheios de love pra dar? A tragédia grega? A goleada do Palmeiras sobre o São Paulo? Sim, estes foram assuntos muito comentados na semana. Mas a vida e a profissão ensinam que nem sempre o que o jornalista acha mais relevante é o que realmente interessa ao cidadão.

Pois tudo isso ficou pra trás quando fizemos “a grande descoberta”: a terça-feira, 30 de junho, teria um segundo a mais. Coisa de cientista pra sincronizar os relógios do mundo com a rotação da Terra. Algo que parece bem bobo, mas que segundo especialistas tem muita importância. É o seguinte, vou explicar. É que… Não, não vale a pena perder preciosos segundos com um tema tão complicado para um cara (eu, eu mesmo) que sempre foi um zero à esquerda na Matemática, uma tabela periódica de desculpas esfarrapadas pra não estudar Química e a distância mais curta entre a ignorância e a falta de esforço pra entender a Física.

O fato é que esse um segundo adicional, que já nos foi dado de presente 26 vezes desde 1972 (26 segundos!), se transformou no assunto preferido pelos ouvintes. Mensagens aos montes chegando, cada um dizendo o que faria com o “tempo extra”. Tinha de tudo… De romântico a dorminhoco, trabalhador a baladeiro, passando também pelo politicamente correto e incorreto. Alienação? Não! Apenas uma demonstração de que as pessoas estão de saco cheio da mesmice, da cara-de-pau e das mentiras “deslavadas a jato” repetidas por aqueeeles personagens, que somos obrigados a despejar sobre elas todos os dias.

Depois de tamanha repercussão do bizarro horário de 23 horas, 59 minutos e 60 segundos antes da virada para 1º de julho, me vi tomado pelo toc-toc do pensamento incessante sobre o que faria com o tal “segundo plus”. Martelou na volta pra casa, martelou quando fiz a habitual corrida, martelou debaixo do chuveiro, martelou até no travesseiro…

A primeira imagem foi o nascimento da minha filha. Aqueles olhos grandes arregalados pra mim. Tadinha, fui a primeira pessoa que ela viu. Ficaria ainda mais feliz se aquele momento se estendesse por mais um segundo.

A cena se repetiu quatro anos depois, com o irmão dela. Os mesmos olhos me encarando, mas além do olhar foquei no penduricalho (zinho) dele. Como seria bom ter um segundo a mais para uma ida e vinda entre os olhos e o…

E o que mais? Um segundo extra pra ver as primeiras engatinhadas, os primeiros passos e os primeiros tombos. E para ouvir os primeiros sons, depois palavras e principalmente trocas de sílabas.

Também queria um segundo a mais pra corrigir algumas bobagens. Claro que seria suficiente! E pra dizer a alguém especial que sua importância será eterna, mesmo quando parecer que o tempo se esgotou.

E vai outro segundinho de sobra pra visualizar os olhos doces e carinhosos de quem me socorreu nos piores momentos de depressão. Um simples olhar pra agradecer por algo que também é para sempre.

E como a vida renasce e segue, por favor, reserva aí mais um segundo pra mim. Só pra dizer a alguém que aquilo que eu disse não é bem o que eu disse. Na verdade, é muito mais do que eu disse, com o perdão da redundância e das repetições.

Com um segundo a mais, também teria dado um último abraço mais apertado no meu pai naquele dia em que eu não sabia que seria a despedida.

Ainda aproveitaria o tempinho estendido pra não sentir vergonha de ter “suor nos olhos” por alguém que mereça uma lágrima.

E, sem querer abusar, mais um segundo pra um alô especial a ouvintes de tanto tempo. E pra um bom dia menos apressado pro morador de rua que cata latinhas na rodoviária e me cumprimenta quando corro pra pegar o ônibus de madrugada.

Ah, claro, um chorinho no tempo pra mais um cafuné na minha cachorra ou nos “cãopanheiros” dela que vejo largados na rua.

Putz, a lista tá grande… Só um segundo pra dizer “Porco, Porco” e reviver a sensação do Maaaarrrrcoooos pegando aqueeele pênalti. Por favor, corintianos, não fiquem bravos. Mas se rolar uma raiva que seja apenas por um segundo. E vamos em frente…

O alarme do celular tocou às 3h40 “damadru”, como sempre. Fiquei sem saber direito se foi pensamento ou sonho. Ou tudo junto e misturado. Mas valeu ter passado a eternidade das 23 horas, 59 minutos e 60 segundos dormindo. Não quero mais ter tempo de dizer que não tenho tempo…