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Um amor para postar

Haisem Abaki

08 Junho 2013 | 11h27

Quer uma prova de amor de verdade? Então vai dar uma olhada no meu mural. Se depender de um comercial de lingerie para o Dia dos Namorados, é assim que a coisa funciona. Não precisa pedir em namoro, conhecer a família e nem fazer a primeira viagem a dois. É só mudar o status de relacionamento e pronto.
É muito mais prático mesmo. E sem inconveniências como sentir saudade, ter vontade de ver e falar com a pessoa, querer estar olho no olho o tempo todo, tocar a pele, “memorizar” o cheiro, suar e sofrer de “disparonite de coração aguda” com a presença ou ao ouvir a voz. E, melhor ainda, sem ficar intrigado com as coincidências e com a inútil tentativa de saber como ela tem o poder de entender aquilo que nem você entende.
Basta avisar todo mundo e esperar pelos cliques em “curtir” e os comentários com palavras como “parabéns”, “lindos”, “fofos”, “felicidades” ou as carinhas e coraçõezinhos dos “emoticons”. Só vive um amor verdadeiro quem assume nas redes sociais, conjugando o verbo “feicibuquear”.
Vendo a moça que vem de “conteúdo” na peça, o negócio é assumir de uma vez, esquecer o pretérito e ir direto para o presente do indicativo. E se não rolar um futuro altera-se o perfil de novo. Postar e amar são sinônimos.
Já estava quase convencido de que não existia amor antes das redes sociais quando a voz inconfundível de Renato Russo surge num comercial de celular, mostrando a improvável paixão de Eduardo e Mônica.
Ele com preguiça de levantar e ela já tomando um conhaque em outro canto da cidade.
E depois de um encontro casual ele não aguenta mais “birita” numa festa e ela só querendo saber do boyzinho que pretendia impressionar.
Trocaram telefones e marcaram um encontro. Ele sugeriu uma lanchonete e ela queria ver o filme do Godard. Venceu a ida ao parque e ele reparou que ela tinha tinta no cabelo.
E não acabou aí, mesmo com ela fazendo Medicina e falando alemão e ele ainda nas aulinhas de inglês.
E o fim todo mundo já sabe, principalmente que os dois comemoraram juntos, brigaram juntos muitas vezes depois e que se completam “que nem” feijão com arroz.
Foi um alívio “descobrir” que o amor já existia antes das redes sociais e do celular. Cada um que pense o que quiser, mas acho que quem acredita que é só uma questão de status de relacionamento está precisando de recuperação, como o filhinho do Eduardo.
Essa história terminava aqui e já estava sendo postada, “blogada” e publicada quando o rádio toca Amor e Sexo com Rita Lee. Gostei mais desse encerramento. Apesar de tudo, estava com pena de mandar a moça da lingerie pra recuperação…