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Sobre ideologias e cacas

Haisem Abaki

24 Abril 2015 | 11h43

Sabe aquela velha e batida piada, “relógio que atrasa não adianta”? Descobri sem querer que faço minhas habituais corridas no sentido anti-horário. Não escolhi o método, apenas me sinto bem e pronto. Outro dia, num bate-papo no ar, o preparador físico Aulus Sellmer me deu a dica de variar, correndo alternadamente também no sentido horário, como forma de melhorar o desempenho no exercício.

Depois da nossa conversa pelo rádio, bem que tentei… Mas logo retomei a rotina de “voltar no tempo”. Deve ser coisa de velho que não quer largar o costume. E assim foi até cruzar com dois sujeitos exaltados no parque.

Vamos ver se consigo fazer você, leitor, visualizar a cena… Eu correndo no sentido anti-horário, todo pimpão, na pista com um lago à minha esquerda e árvores à direita. E justamente ali estavam posicionados os cidadãos, cada qual de um lado da trilha.

Demorei um pouco pra captar as mensagens nas três vezes em que passei por eles. O da esquerda, considerando o trajeto que eu fazia e o meu campo de visão, descia o cacete na “dona Dilma”. O da direita a defendia. Ouvi do cara “da esquerda” que “ela tá perdidinha e ferrando o Brasil”. O “ferrando” é uma livre tradução da palavra original, também iniciada com um sonoro “f”. O “da direita” respondeu com um “vocês perderam e não aceitam a derrota”. Fiquei confuso com as posições geográficas e ideológicas, mas ambos pareciam amigos e tinham um tom de riso nas falas.

Na segunda passada pela dupla peguei a conversa andando. O “da esquerda” se referia a “bandidos petralhas do Petrolão”. O “da direita” rebatia alegando que “tudo começou com os tucanalhas e ninguém fala nada”. Acelerei o passo, já assimilando que a localização de cada um era oposta ao pensamento, mas antes de me afastar ouvi que o próximo tema dos ainda sorridentes beligerantes seria a crise hídrica. Nem precisava ficar lá pra saber o que cada um diria…

No último encontro involuntário com os litigantes torcedores, “o da esquerda” avisava que “se tiver mais protesto contra a roubalheira dessa vez eu vou”. E o “da direita” rebatia com o dedo “pai de todos” erguido, dizendo “vai lá, coxinha”, mas sem deixar de rir.

Coincidentemente, naquele exato momento fui obrigado a reduzir o passo e parar. É que os dois cachorros dos rapazes (refiro-me aos animais que estavam com eles) resolveram atravessar a pista. Até então permaneciam quietos e sentados ao lado dos donos. Os debatedores encerraram a guerra verbal e, pelo que entendi, iriam juntos a um churrasco.

Seguiram em frente pela trilha e logo o primeiro cãozinho deixou a sua marca pelo caminho. Alguns metros adiante, o outro bicho também soltou o seu barrinho. E ninguém limpou nadica de nada, nem “o da esquerda”, nem o “da direita”.

Desviei da “livre expressão canina” e notei que foi o primeiro ponto em comum que tive com os caras. Estávamos os três sem saco: eu pra ouvir e eles pra começar pelas cacas dos cachorrinhos o que diziam querer fazer com o país.

Foram embora felizes e animados para a comilança. Só não consegui saber se a churrascada seria na laje ou na varanda gourmet…

E aprendi que se estivesse correndo no sentido horário ficaria mais fácil a compreensão ideológica e geográfica de tão importante discussão. Pelo menos isso, já que o cocô ainda estaria ali, impávido colosso!