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Sim, eu posso virar corintiano!

Haisem Abaki

02 Março 2018 | 13h01

– Véio, ouvi você falar no rádio sobre essa babaquice que estão fazendo com o Jaílson. Escreve alguma coisa sobre isso no blog…

– Ah, não sei. Tô meio de saco cheio de dizer o óbvio. Não tô a fim de perder tempo com esses caras.

Era um amigo comentando comigo a reação de “conselheiros” do Palmeiras à reportagem da Globo mostrando a dona Maria Antônia, mãe do nosso paredão no gol, vendo em Itaquera, com a camisa do Corinthians, o jogo contra o Palmeiras do filho dela. Achei que já tinha dado o recado e pronto. Mais que isso seria dar importância demais a esse tipo de “pensamento” retrógrado e intolerante.

Mas ontem à noite vi um desabafo do “filho da corintiana” no SporTV. Ele falou do apoio que sempre teve da família e das dificuldades que enfrentou por ser negro e pobre até realizar o sonho de ser goleiro de um time grande e para o qual sempre torceu.

Na hora tive a lembrança do Juca, um velho amigo, já falecido, do meu pai. Era um corintiano alegre e fanático que, lá em 1972, quando eu tinha oito anos, iniciou uma tentativa de me doutrinar, dizendo pra eu deixar de ser palmeirense e virar corintiano.

– Você tem que ser corintiano!

– Nunca!

Às vezes a gente se encontrava e eu já soltava o “nunca” antes que ele viesse com a ladainha de sempre. A última vez que o vi foi assim. Aperto de mão, abraço e “nuuuunca”!

E o “nunca” começou por causa de Leão, Eurico, Luís Pereira, Alfredo Mostarda e Zeca; Dudu e Ademir da Guia; Edu, Leivinha, César Maluco e Nei. O Oswaldo Brandão colocava o Fedato no segundo tempo e era gol na certa também. E com o tempo veio a paixão pela história do clube, obrigado pelos intolerantes e ignorantes de plantão a deixar de ser Palestra Itália em 1942, por causa da guerra.

O que eu vi no sábado passado foi muito diferente da visão seletiva dos novos representantes da intolerância. Eu vi uma mãe torcendo pelo filho e que só voltou a ser corintiana depois que ele foi expulso de campo. E ainda assim ela aparece na reportagem torcendo para que o substituto Fernando Prass pegasse o pênalti cometido pelo filho que ela deixou ser palmeirense desde criancinha.

Pois hoje talvez eu não dissesse mais o habitual “nunca” ao velho Juca. Tem um jeito, sim, de eu virar corintiano, ainda que seja apenas por 90 minutos de uma partida. Conheço um moleque de 14 anos que é minha versão muito melhorada. E que bate um bolão e tem uma canhotinha forte e certeira. Ele também é palmeirense desde sempre, mas eu viraria a casaca se ele jogasse no nosso rival.

E não ligaria para “conselheiros” e valentões de rede antissocial que manifestaram apoio a essa insanidade. Será que querem pedir antecedentes “criminais” pra saber se alguém da família dos nossos jogadores cometeu o delito de torcer pelo adversário?

Dona Maria Antônia merece desculpas. E merece ser recebida na casa onde o filho dela joga e brilha. E que seja respeitada com a roupa que estiver. Porque o nosso hino prega a transformação da lealdade em padrão e não em podridão de um tipo de pensamento que já deveria estar morto e bem enterrado. E Viva o Juca!