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Quando os cacos ensinam

Haisem Abaki

25 Agosto 2017 | 11h59

Um vídeo desses que a gente recebe aos montes diariamente e nem consegue ver direito no meio da correria me chamou a atenção e trouxe a lembrança de um gosto adormecido de criança. Eram imagens do conserto de um lindo vaso de cerâmica, coitado, que tinha virado um punhado de cacos. Coisa imprestável, para ser jogada fora. Só que não.

A peça passou por mãos talentosas e voltou a ficar linda. Na verdade, ainda mais bela, graças ao kintsugi, que é uma técnica japonesa de restauração com uma mistura de laca e pó de ouro. Remendo? Não. Objeto desvalorizado e de segunda mão? Não. Muito mais do que um apego material, o que está por trás da restauração é uma espécie de filosofia de vida.

A reparação estética pode até deixar mais valorizado o que estava em fragmentos inúteis e seria descartado. Mas o ensinamento que está diante dos olhos para quem tiver o coração aberto para aprender é que a vida é transitória e imperfeita. Dor, sofrimento e feridas existem mesmo.  A questão é o que a gente faz com o vaso quebrado da existência.

Jogar tudo fora é sempre uma saída mais prática. Tchau, vaso imprestável. Você não vale nada e os bons momentos que vivemos juntos não significam mais nada porque agora você está todo arrebentado e não serve mais para receber belas e cheirosas flores. E assim a vida segue. Pra que consertar essa porcaria? Tem gente que pensa e age assim.

Mas também tem gente que não se envergonha dos erros que se transformaram em cacos e tenta reconstituir o vaso. Realmente, não vai ficar igualzinho ao vistoso objeto de arte que caiu e se quebrou. Caiu e se quebrou porque cair e se quebrar é da vida. E nunca mais será o mesmo. E não será o mesmo porque pode até ficar mais bonito. E isso não é só uma abobrinha de autoajuda de internet, rede social e aplicativo de mensagens.

Ah, mas consertar o vaso é uma forma de se expor, de mostrar ao mundo que houve uma ferida ali, dirá quem é a favor do envio sumário para o lixo. Afinal, a peça restaurada terá marcas aparentes e todos poderão ver que não é mais aquela original que tanto encantamento causou. E daí? O que é que as flores têm com isso?

Desde criança, sempre gostei de vasos e flores. E já quebrei alguns nessa vida, derramando a água, estragando as pétalas e levando bronca por ser um menino tão desastrado e de pouca coordenação motora. E quebrei outros que não tinham um formato físico. Porque a vida não é toda certinha e intacta. Mas não sou da turma que manda o vaso despedaçado para o lixo mais próximo. Desconfio muito dos perfeitos e inquebráveis que se apresentam insensíveis como pedras. Apesar da total falta de habilidade manual, sou da turma dos consertadores. Os cacos ensinam. E que venham novas flores!