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Pura armação

Haisem Abaki

08 Março 2013 | 16h07

Uma das minhas maiores vocações volta a se manifestar. O dom do desapego das coisas materiais registra mais um item numa longa lista, que começou ainda na infância. Já perdi um número incalculável de lápis, canetas, borrachas, apontadores, pentes, livros e, principalmente, guarda-chuvas. Relógios, documentos e cartões de crédito e débito também saíram andando por aí sem eu notar.
Nos últimos tempos, achei que a distração estava controlada, se restringindo a alguns fios de cabelo que dão uma escapada de vez em quando. Até o dia em que percebi uma falta abaixo da testa e acima do nariz. E desta vez foi uma perda no plural, já que o dicionário assim ensina. Meus óculos para perto sumiram.
Pelo menos sei exatamente onde isso aconteceu. Foi no eixo São Paulo-Mogi das Cruzes, onde concentrei as buscas e os pedidos de ajuda, sem sucesso. Sempre fui um sujeito de ações rápidas e nesse caso tomei medidas ainda mais drásticas, já que precisava das lentes para trabalhar.
Sou ágil e ajo sem embromação ou adiamentos. Os óculos caíram no mundo em novembro e em fevereiro eu já estava pensando nas providências, no gerúndio mesmo. Nesse período, meu nariz e o computador ficaram muito próximos, vivendo um intenso caso de amor à primeira vista.
Com aquela ve-lo-ci-da-de que me caracteriza, no último dia das férias, fui fazer tão urgente encomenda. Minha consultora para assuntos óticos foi junto e me fez experimentar uma infinidade de modelos. Mas meus olhos só cresciam para os preços garrafais escritos em etiquetas minúsculas grudadas nas hastes: 375 reais, 400 reais, 550 reais… Não gostei de nada e a vendedora ainda me apresentou um de 1.009 reais!
Na segunda loja os valores eram menos agressivos ao bolso, mas ainda custavam os olhos da cara. Dessa vez nem disfarcei mais: olhava direto para os números. Na primeira ótica, fingia observar a armação e mirava com o canto do olho no que realmente me interessava.
Saímos dali e fui bem claro com minha menina dos olhos. Avisei que a próxima loja seria a última e, como minha voz some misteriosamente nessas horas, fiz um pedido. “Entra lá e diz que você quer a armação mais vagabunda que eles tiverem!”.
Diante da vendedora, ela traduziu para “mais simples” e os preços começaram a cair a olhos vistos. Logo as duas já conversavam como se eu não estivesse ali e “escolheram” um modelo “na faixa dos 200 reais”. Isso mesmo, não me falaram o preço exato.
Já estava tão cansado que não percebi que aquilo era pura armação. Com as lentes, dois detalhes que deixei passar sem enxergar, a conta fechou em 285 reais. Aceitei porque não há o que fazer quando duas mulheres, unidas, dizem que “ficou uma gracinha”.
Mas, para que os novos óculos não saiam de perto de mim, tenho feito um exercício mental. Transformei a doce voz da balconista em tenebrosa: DUZEEEEENTOS E OITEEEEEEEEENTA E CIIIIIIIINCO REAAAAAAAAIS!
Já perdi muitas coisas, mas não o juízo, eu acho. Do verbo achar. Achar no sentido de pensar, supor, opinar… E não de encontrar, descobrir, localizar…