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Por favor, leia até o fim

Haisem Abaki

02 Maio 2014 | 00h02

Aquele antigo provérbio que dizia que “o papel aceita tudo” pode ser adaptado agora para “as redes sociais aceitam tudo”. Sites de “vanguarda”, disfarçados de “democráticos”, também parecem topar qualquer negócio, apesar do alerta de uma suposta moderação dos comentários dos leitores. Se um jornalista agir assim, será acusado de tendencioso. Se não procurar o ofendido para ouvir o outro lado, dirão que não deu o direito de resposta. Ah, então essa cobrança só vale para os outros?
É muito prático pegar uma entrevista que alguém fez, jogar na rede e abrir espaço para ofensas. Foi o que aconteceu  com a conversa que tive com o governador do Acre, Tião Viana, sobre o envio de imigrantes haitianos para São Paulo. Alguns seguidores de discursos prontos até me chamaram de “racista” e de representante da “elite”. Só porque eu disse que avisar o governo do estado e a prefeitura seria uma atitude de respeito aos próprios haitianos, que aqui chegaram sem nada, nem carteira de trabalho. A companheira Tatiana Ferraz também foi atacada injustamente pela raivosa desinformação de quem não a conhece. Minha vontade é de rir, como faria meu pai, com ironia, se estivesse vivo.
Rir da ignorância dos que julgam sem saber nada sobre o alvo da ira. Então, aí vai uma forcinha para os poucos que já me condenaram, baseados na intolerância que marca suas posições políticas de torcida organizada. Sou filho de imigrantes sírios casado com uma filha de cearense com pernambucano, carinhosamente chamada de “neguinha” pela mãe. Fiquei muito feliz ao ver que meus dois filhos não herdaram a pele do pai branquelo. Quanto racismo da minha parte!
Minha família é muçulmana, mas estudei o primeiro grau inteiro em colégio de freiras. Ih, vão dizer que faço parte da elite por causa disso… Mas peço um desconto porque fiz o segundo grau em escola pública e paguei a faculdade com o meu salário. Entrei no curso de jornalismo com 17 para 18 anos e já trabalhava desde os 15.
Mas voltando ao colégio de freiras, lá, mesmo sendo de família muçulmana, tive aulas de religião como os outros colegas, todos cristãos. Era uma exigência dos meus pais, que nunca foram sectários, intolerantes, fanáticos, nem ignorantes. O fato de ter um nome estranho no meio daquela molecada com nomes “brasileiros” me ajudou a entender que é perfeitamente possível conviver em harmonia em meio às diferenças culturais, religiosas, sociais… Quanto racismo da minha parte!
Aos caros julgadores, informo que o velho Mohamed, meu pai, me educou dizendo que “o socialismo é mais justo”. Por causa da influência do “turco”, era um dos alunos mais ativos nas aulas de História, participei do movimento estudantil na minha cidade durante o último governo militar e entrei no grito pelas Diretas Já. Depois, quando obtive o direito, sempre votei em candidatos e partidos de esquerda. Imagino que agora os patrulheiros estejam com um nó na cabeça, já que o raciocínio cruzado é uma dificuldade para os intolerantes do pensamento único.
Mas a cobertura de política, primeiro na minha cidade, Mogi das Cruzes, depois em São Paulo e com algumas idas a Brasília, me fez ver que as diferenças não existem quando o assunto é a sobrevivência dos políticos. Sim, são todos iguais.
Iguais também nas reações. O seu Mohamed me ensinou a não ter medo de dar opinião, sempre respeitando a dos outros. Quando comecei a apresentar programas na CBN, nos anos 90, os canais de interatividade eram telefone, fax e correio. Alguns ouvintes mais irritados chegavam a ligar e dizer “tira esse petista do ar”.
Nos anos Lula eu estava na Bandeirantes, já havia e-mail e depois vieram as redes sociais. E o bombardeio dos patrulheiros mais exaltados me chamava de “tucano”. A história se repete agora na Rádio Estadão. Esses “xingamentos” são meus dois únicos orgulhos profissionais.
Não costumo me colocar em primeiro plano porque acredito que o fato e o entrevistado sempre são mais importantes do que o jornalista. Mas fiz isso um pouco como desabafo e principalmente para que os fanáticos patrulheiros tenham mais subsídios para decidir se vão em frente com seus atos e comentários discriminatórios. Isso se eles tiverem chegado até aqui. Os adeptos do pensamento único sentem uma “coceira” pra julgar logo e não costumam ler e ouvir até o fim. Por favor, não me culpem… Eu avisei no começo!