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Papa José Paulo do Rádio

Haisem Abaki

18 Maio 2017 | 05h30

Desde criança, sempre tive uma mistura de fascínio e curiosidade por figuras papais, mesmo sendo de família muçulmana. Talvez tenha sido pelo “sincretismo obrigatório” de meus pais, que me colocaram pra estudar numa escola católica.

O papa Paulo Sexto me parecia simpático, mas não tenho presentes na memória registros da voz dele. Só que tenho, sim, lembrança do dia em que morreu. Era agosto de 1978 e a TV interrompeu a transmissão de Internacional x Palmeiras para dar a notícia.

João Paulo Primeiro também me despertou uma simpatia, logo substituída por um sentimento de pena por sua morte prematura. Os momentos mais marcantes para mim foram de João Paulo Segundo, desde a surpresa na escola com a escolha de um polonês, passando por suas emocionantes visitas ao Brasil e a tantos outros países, até o anúncio da morte dele, feito por mim na Rádio Bandeirantes num sábado de plantão em abril de 2005.

Com Bento Dezesseis, minha “relação” foi um pouco mais fria, digamos, profissional. Estava de plantão na Rádio Estadão no carnaval de 2013 e dei a notícia da renúncia dele. E veio outra boa surpresa, a do argentino Francisco, que parece ser um papa mais humano e que até gosta de futebol.

Mas o papa de quem me considero mais próximo não é da Igreja. É do Rádio. Papa José Paulo Primeiro. A brincadeira era inevitável durante o papado de João Paulo Segundo, até porque os dois fazem aniversário na mesma data. Todo dia 18 de maio era a mesma coisa e eu costumava falar dos dois papas na Rádio Bandeirantes.

Comecei a ouvir o José Paulo de Andrade em 1973, aos nove anos, época em que eu ainda não sabia que se tratava de um papa e ficava irritado com o “companheiro” dele, aquele gato, me acordando tão cedo.

Uma relação de ódio e amor, nessa ordem. Depois trabalhamos juntos por 12 anos. Foi um período muito rico em que descobri que o Zé já me ouvia na CBN, antes da minha ida para a Bandeirantes. Um papa como ouvinte!

Nunca pensei que admiraria alguém tão diferente de mim e às vezes com ideias contrárias às minhas. Um sujeito veemente, em algumas situações aparentando uma falsa agressividade e que assumidamente se dizia conservador. Pois foi esse cara que, lá no fim dos anos 70, ou seja, ainda na ditadura militar, colocou um líder sindical pra falar no Rádio. Um tal de Lula. Coisas de um destemido papa. E esse destemor ele demonstrou tantas outras vezes que o texto aqui ficaria interminável.

Mas o melhor da nossa convivência foi o aprendizado diário, às vezes com broncas amáveis. Sim, broncas amáveis mesmo, sem contradição ou ironia. Como no dia em que ele reclamou de umas entrevistas que eu fazia. Pensei que era alguma falha minha e quis saber como corrigir.

– As pessoas não querem ouvir entrevista porra nenhuma! As pessoas querem te ouvir. Fala você, porra!

Depois, quando eu estava receoso de aceitar um cargo de chefia na emissora, me chamou na sala dele e ficou uma hora me dando a mais longa bronca amável que recebi e que aqui reproduzo de forma bem resumida.

– Aceita logo, porra!

E, quando já não trabalhávamos mais juntos, eu na Rádio Estadão, toca o celular com mais uma bronca amável. Ele reclamava do excesso de comerciais e de material gravado, dizendo que eu “sumia” do ar por um tempão.

– Eu ligo o Rádio pra te ouvir e você não fala. Tem que falar, porra!

Eu já percebia isso, mas uma vez o saudoso Guilherme Degani, produtor e coordenador do Jornal Gente, confirmou a “suspeita”, num momento em que eu estava sem pauta, comendo pastel na feira do Pacaembu e houve uma insistência para que eu entrasse no ar mesmo assim.

+ É que o Zé gosta de você, porra!

Nesses anos todos foram várias broncas amáveis no campo profissional e também na vida pessoal, como na perda do meu pai, que obrigava o moleque sonolento que eu fui a ouvir “o homem do gato”. Nesse dia foi menos bronca e mais conforto, me sacudindo verbalmente pra eu não desistir de nada.

Todos os puxões de orelha, apesar da forma, vinham com a sabedoria e a veemência de um cara que é muito Gente e que deu o Pulo do Gato na vida. O papa José Paulo faz 75 anos hoje. Apresento aqui minha eterna gratidão, extensiva a Salomão Ésper, a caminho dos 88 anos, que quando estava presente sempre reforçava calmamente os preceitos papais.

E, baseado no que aprendi com o próprio José Paulo Primeiro, dou um conselho sem meias palavras ao ranzinza das broncas amáveis.

– Não deixe de se cuidar e trate de viver muito, muito e muito mais, porra!