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Pane ou choco?

Haisem Abaki

19 Dezembro 2014 | 22h19

A caminho da festa de fim de ano da fiiirrrma, ouço no Rádio os amigos Emanuel Bomfim e Júlio Pacheco iniciando o Estadão Noite com uma pergunta que parecia uma mistura de Natal com Carnaval.

– Você é da ala do panetone ou do chocotone?

Discussão bem-humorada, como sempre, abrindo o programa com descontração antes de anunciar as atrações que viriam nas próximas quatro horas. Ao entregar o volante ao manobrista, ainda tive tempo de saber que um era da turma do pane e o outro da galera do choco e suas variações, como doce de leite.

Três horas e algumas latas de refrigerante de cola e suco de frutas depois (o barman fez cara de decepcionado com meus pedidos sem álcool), peguei o carro para ir ao encontro de quatro horas de travesseiro antes de madrugar para o trabalho. Fui ligar o Rádio e acabei derrubando um cone na saída. Nunca mais vou misturar cola e frutas…

O programa já estava na última hora e o assunto do momento era… Pane ou choco??? Percebi que o tema havia atingido proporções (g) astronômicas. Os ouvintes embarcaram no que acabou virando uma enquete. Do forno quente do WhatsApp saíam mensagens em série com preferências e até argumentos para justificá-las.

Nesses últimos meses, só havia notado embates tão acalorados em discussões como “Dilma ou Aécio?” e “o Palmeiras cai ou escapa?”. Mas desta vez as opiniões não eram raivosas eleitoralmente nem jocosas futebolisticamente. Emanuel seguia na sua apaixonada defesa do pane e Júlio insistia na fissura pelo choco. Nas manifestações do bolo de ouvintes, também havia equilíbrio entre os adeptos das frutinhas cristalizadas e dos recheios cremosos.

Pelas opiniões, os “panetólatras” demonstravam ser tradicionais e os “chocólatras” se apresentavam como mais descolados. Enfim, o paladar de cada um revelava um estilo de vida, um comportamento, quase uma posição ideológica de diferentes sabores e texturas, numa discussão suculenta e bem molhada.

Mergulhei em mim mesmo e me descobri em estado de metamorfose ambulante natalina. Sempre gostei de panetone, talvez por questões culturais. Quem tem origem árabe valoriza o ato de poder comer com as mãos. Com o tempo, passei a preferir o chocotone, mesmo me lambuzando na falta de jeito para a coisa. Mas comia as frutas cristalizadas retiradas por meus filhos, que são da “geração choco”. Agora estou numa fase de rompimento com o choco e de reconciliação com o pane.

Refletindo mais um pouco, notei que a idade deve ter mudado outros gostos, hábitos, manias… Adorava melão, mas agora prefiro mamão. Era tarado por abobrinha recheada, tadinha, hoje trocada pela berinjela. E o espaguetti com muita carne moída e molho vermelho em excesso perdeu minha fidelidade para o penne alho e óleo.

Já estava pensando em quindim (comia dois de sobremesa) e abacaxi (meu novo amor), quando fui despertado pela mensagem de um ouvinte contando que tinha encarado um “delicioso” panetone de bacalhau. Aí foi demais pra mim. Potencializei o sentimento de “blah” imaginando como seria um bolinho recheado com uva passa.

Fui salvo da sensação ruim pela dona do meu estômago e do meu coração… Não, a ordem não é essa. Vou reescrever… Fui salvo pela dona do meu coração e do meu estômago, que quis saber se eu já estava chegando. Essa preferência é a mesma de sempre, tá?

Assim como não mudou o gosto pelo Rádio bom companheiro e que conversa com o ouvinte. Do jeito que fazem o Emanuel Pane e o Júlio Choco. É massa mesmo! E a melhor conclusão é quando não se chega a conclusão nenhuma…

A todos que me dão o prazer da companhia aqui e no Rádio, desejo um Natal cheio de pane, choco e o que de mais doce houver. E um Feliz 2015!