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O vaiado e o bicha

Haisem Abaki

09 Setembro 2016 | 09h44

Estou aos sete minutos do segundo tempo nesse jogo da vida. E, sem falsa modéstia, desde os primeiros lances, já apresentava uma característica que logo começou a ser tratada como virtude. Ainda era criança quando amigos dos meus pais se espantavam com a minha memória. Na verdade, era apenas facilidade para decorar nomes de presidentes da República, ministros, personagens históricos e números de telefone. Tá bom, vai… Era até  chamado de “prodígio” por alguns.

Mas hoje vejo essa “qualidade” se voltando contra mim. Não queria mais ter tantas lembranças. Virei um chato inconformado com certos “esquecimentos” que tenho visto por aí. E o pior é que os “desmemoriados” seletivos são velhos amigos, gente de bem em quem ainda tento confiar. Entre eles estão jornalistas que se comportam como se estivessem na arquibancada.

E fico tranquilo pra dizer isso porque também sempre tive os meus “lados”. Fui criado por um pai muçulmano, com ideologia socialista e palmeirense, mas que sempre me mostrou que existiam os “outros lados”. Por isso, não tenho o menor constrangimento em enxergar os radicalismos dos que se dizem islâmicos. Nem para ver os desvios de conduta (e de dinheiro público) de antigos “heróis” da esquerda. E muito menos para cornetar o Palmeiras. Não mudei de lado por causa disso.

A mais recente bizarrice que vejo é esse Campeonato Brasileiro de Vaias em que está em disputa o título de “o mais odiado”. Gente esclarecidíssima, que não pode usar o benefício da ignorância e que se indignou com os apupos a Lula no Pan de 2007 e a Dilma na Copa de 2014, mas que agora se regozija com o uuuuuuhhhhhh a Temer no Maracanã. Desta vez não ouvi “teses” de torcida organizada dizendo que eram vaias “da elite” como as duas primeiras. Ora, vaia é vaia. O som é o mesmo em todas. E penso que nos três casos foram vaias válidas.


Da mesma forma, vejo uma justa indignação quando colegas de profissão, no exercício de suas funções, são vítimas de agressões físicas e verbais em protestos. Só que tem uma turma que fica muito mais veemente quando o ataque parte da polícia e que dá “um desconto” se a mão que bate ou a voz  que ofende vem de manifestantes. Até entidades de classe que deveriam defender os jornalistas em qualquer dessas situações fazem essa diferenciação. Sim, considero pior a agressão por parte de um agente público pago com nossos impostos, mas o tapa “civil” não é civilizado e também dói.

Essas “leituras seletivas” já são banais como o grito da torcida nos estádios deste país quando o goleiro adversário do time da casa vai cobrar o tiro de meta.

– Biiiiiichaaaaaa!!!

E se o cara “gostar de homem” mesmo? Qual o problema? E se adorar o Lula, a Dilma ou o Temer? E se não for simpatizante de um deles, de dois, ou dos três? Enfim, ficamos indignados quando o vaiado ou o bicha é do nosso time, mas berramos que é “democrático” se o alvo do ataque for um adversário. Que cada um possa vaiar ou aplaudir quem quiser. E que tenha liberdade para ver (ou não ver) qualquer filme sem ser pau mandado das opiniões e preferências alheias. Nem das minhas.

Aos amigos incomodados com o que digo peço mais jornalismo e menos “dá-lhe, Porco” e “vai Corinthians”. Mas se não gostarem do meu “sincericídio” fiquem à vontade. Se quiserem posso cobrar um tiro de meta pra facilitar o serviço.