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O que vem depois da catraca?

Haisem Abaki

21 Junho 2013 | 11h07

Levanta a mão aí quem for capaz de explicar com toda a certeza o que está acontecendo neste país. Penso que pode ser uma coisa boa, mas é mais prudente puxar o freio das conclusões definitivas. De repente, em vez de 190 milhões de técnicos de futebol, somos todos sociólogos, filósofos, antropólogos e cientistas políticos dando palpites na Copa das Manifestações.
Do terminal, saiu um ônibus com a inscrição “REDUÇÃO DA TARIFA” no destino. A bordo, estavam pessoas aparentemente bem-intencionadas. No trajeto, mais gente foi fazendo sinal e entrando. Primeiro, subiram os inconformados com os gastos na construção de estádios pra inglês ver.
Depois, embarcaram os revoltados com outros preços que não param de aumentar e os insatisfeitos com a volúpia tributária e a má qualidade dos serviços públicos. Os indignados com a corrupção também ficaram animados e se juntaram ao grupo.
Em seguida, apareceu uma turma com raiva dos partidos políticos e dos políticos partidos que acham que salvaram, estão salvando ou prometem que ainda vão salvar a pátria. E veio outra leva de gente brava com os meios de comunicação, o Judiciário e a tentativa de se tirar o poder de investigação do Ministério Público.
A cada ponto entravam mais e mais passageiros, como os que só pegaram o ônibus por causa dos excessos da polícia e aqueles que não tinham uma causa específica, mas romperam o silêncio, cansados de acumular um monte de sapos engolidos bovinamente.
Claro que com o sucesso do ônibus na estrada sem fim das redes sociais também se apresentaram alguns que só foram na onda, mas isso não lhes tira o direito de viajar em busca de um destino melhor. E no meio desse povo todo surgiram uns poucos, mas barulhentos, que só queriam tumultuar, depredar, saquear e levar a carroça para o abismo.
Pressionados, dois cobradores cedem ao clamor da superlotação e avisam que, com muito sacrifício, vão reduzir o valor da tarifa. Todo mundo comemora, mas ainda não dá pra saber como a viagem vai acabar. O problema é que, olhando com atenção, não é possível perceber quem é o motorista.
Oportunistas políticos, loucos para assumir o volante, tentam mostrar que mudaram de itinerário e, para não perder o bonde da história, declaram total apoio à massa. Começaram, então, a fazer discursos como se a encrenca não fosse com eles. Só faltou levantarem cartazes com os dizeres: PODEM SE MANIFESTAR QUE NÓS PERMITIMOS.
Não deixa de ser uma suculenta e colorida salada de reivindicações, mas é bom ficar de olho nos que querem mandá-la para o vinagre. Tem motorista agarrado ao volante, candidato a motorista querendo tomar o controle do veículo e ex-motorista buzinando conselhos no ouvido de quem, teoricamente, está no comando. Galera do busão, o negócio é se segurar com firmeza aí. O poste não é de borracha…
Será que além de tomar o ônibus estamos tomando consciência? A certeza só virá se, um dia, os maus motoristas forem transformados em passageiros. Os donos da direção gostam mais dos técnicos de futebol.