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O espantalho e o espantado

Haisem Abaki

02 Fevereiro 2018 | 12h15

O companheiro de bolso celulinha apita pra me avisar da chegada de uma mensagem. Uma foto. Abri e fiquei espantado. Era um velho conhecido que não via há um tempão, o espantalho. Ele estava sentado na cama com sua blusa amarela, calça xadrez em preto e branco, gravata xadrez e amarela e o chapéu roxo e amarelo.

Como sempre, ele sorria pra mim. Fiquei feliz em revê-lo bem e ainda inteiro. Parecia novo depois de mais um remendo. A imagem foi enviada por uma menina que até outro dia tinha dois anos. Foi no segundo aniversário que ela ganhou o simpático boneco de pano. Na minha cabeça isso foi ontem, no máximo anteontem, mas a mocinha agora tem 19 anos.

Ela sabia que não era necessária nenhuma palavra. Bastava a foto. Respondi apenas com uma carinha de sorriso. E nós dois sabíamos que naquele espantalho estava o melhor pedaço da história das nossas vidas. E em todos os bons momentos o querido boneco estava presente com seu sorriso imóvel.

Acho que a paixão da menina por ele foi à primeira vista, logo na primeira apertada. Até hoje não sabemos direito de quem veio o presente. Mas já tinha tudo pra ser amor eterno. Dormiram abraçados já na primeira noite e viraram amigos inseparáveis.


Viagem pra praia? Lá estava o espantalho com a menininha na cadeirinha. Pra montanha? Também estavam juntos. Uma vez houve um descuido e, já na estrada, percebemos que o quase irmão espantalho não estava entre nós. E voltamos para resgatá-lo do esquecimento para que ele pudesse mais uma vez ver o mar.

Até de avião o boneco andou! Atravessamos o mundo pra conhecer nossos parentes na Síria antes da guerra. E durante quase 24 horas de viagem com conexões e espera em aeroportos ele estava lá, firme e forte, sem demonstrar cansaço e com o mesmo sorriso de sempre.

O doce e bravo espantalho resistiu ao tempo, foi costurado, remendado e nem assim tirou aquele sorrisão inabalável. Agora, ele se prepara para uma nova jornada. A menina de 19 anos vai sair de casa pra morar em São Paulo, mais perto da faculdade. Sim, dá um aperto no coração. Mas ela me disse que, ironicamente, podemos ficar mais próximos. Ela até já planeja nossos encontros para quando eu sair do trabalho e me consola dizendo que podemos ir ao cinema à tarde e fazer muitas coisas juntos, sem o desencontro de hoje, eu voltando e ela vindo.

Só que pra mim, o melhor de tudo, pra diminuir um pouco o meu espanto, é perceber que a moça de 19 anos ainda tem dentro dela a menina de dois. Vai com ela, querido espantalho! Você me representa…