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O dedo do ódio

Haisem Abaki

16 Março 2018 | 14h23

Alguém muito especial, que parece me conhecer desde sempre, me fez reviver nesta semana uma lembrança da infância. Foi quando li a história de Tistu, O Menino do Dedo Verde, de Maurice Druon. Eu tinha 12 anos, num tempo em que criança ainda era criança.

O Tistu era um garoto “diferente”, estranho… Enfim, não era “normal”. Mas era filho de um homem muito rico, dono de uma fábrica de canhões e que ganhava muito dinheiro com a guerra. Mas o luxo, a ostentação e a educação refinada em uma mansão cheia de empregados para servi-lo o tempo todo não foram suficientes para fazer dele um bom aluno na escola. Dormia nas aulas e foi “devolvido” à família.

O pai, então, decidiu que o filho precisava ter uma educação voltada para a vida prática. O primeiro professor foi o jardineiro do palacete, que fez a grande descoberta: o menino tinha um dedo verde e tudo o que tocava virava flor. O dom foi mantido em segredo por um tempo.

Depois, teve um “choque da vida real” com o segundo professor. Conheceu a miséria da favela, a desumanidade da prisão e o sofrimento do hospital da cidade. E tudo pelo caminho dele continuava virando flor.

Mas o segredo do menino foi finalmente descoberto quando ele colocou o dedo nos canhões de uma guerra sangrenta entre duas cidades. E o conflito acabou porque tudo também virou flor.

Posso der dado um tremendo spoiler aqui, só que não contei o fim da história. Sim, sei que vai parecer ingenuidade e, sinceramente, tô nem aí pra isso. O fato é que um enredo tão singelo nos traz a obviedade perdida de não sabermos mais nos colocar no lugar do outro.

É revoltante, ainda, ver essa maldita e idiota “polarização”, até em torno de uma morte. Fanatismo, intolerância, ódio… Tudo junto e misturado para “comemorar” o assassinato de quem pensa diferente e por isso “teve o que procurava” e “colheu o que plantou”.

Marielles e Andersons morrem todos os dias e ainda nos dividimos conforme as nossas conveniências em vez de perceber que todos nós morremos um pouco mais a cada dia.

Não quero convencer ninguém de nada. Sei que quem transborda ódio nunca será convencido, até porque muitos ficam protegidos nas falsas trincheiras das redes antissociais e de lá disparam seus canhões. Nossos dedos acusadores não são capazes de apontar bons caminhos e sinto que a missão ficará para os dedos dos nossos filhos.

Isso tudo não é o poder do crime. É o crime no poder numa terra onde dizem que faltam tornozeleiras, mas na verdade sobram tornozelos criminosos. Os mesmos que mandam sempre e apenas se alternam no comando devem adorar essa “polarização”. Agora e na hora da nossa morte. Amém.