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Nem tudo habemus

Haisem Abaki

15 Março 2013 | 16h38

Aos 14 anos, “descobri” que os papas também morrem. Estudava em escola católica, apesar de ser filho de muçulmanos. Coisas do meu pai, favorável ao ensino religioso e que não pensou duas vezes quando viu que não havia um colégio islâmico por perto. Foi a base para eu entender que as religiões têm muito mais semelhanças do que diferenças.
Eu não era “carola”, mas gostava de Paulo VI e sempre ficava atento quando o papa aparecia na TV. Prenúncio da carreira? O dia da morte dele foi marcante. Era começo de agosto e o Palmeiras jogava a semifinal do Brasileirão de 1978 com o Internacional. A TV interrompeu a transmissão para fazer o anúncio. Fiquei triste, mesmo com o meu time se classificando para a final contra o Guarani. Perdemos os dois jogos da decisão ainda em agosto e não havia um novo papa.
Acho que estava na escola quando veio a notícia da escolha de João Paulo I. Simpatizei com ele logo de cara. Parecia um tiozinho sorridente. Pouco mais de um mês depois, outro baque. Dois papas mortos em tão pouco tempo. Surgiu a fumaça branca de João Paulo II e ouvi comentários de gente espantada com a novidade. Um papa polonês…
Em 1978, o Campeonato Paulista começou no segundo semestre e só terminou em 79. Santos campeão e São Paulo vice. Foi um ano sem títulos, mas com três papas.
A profissão me levou para reportagens sobre assuntos da Igreja. Arquidiocese de São Paulo, reuniões da CNBB em Itaici, entrevistas com Dom Paulo Evaristo Arns e outras figuras importantes do clero. E, claro, sempre de olho no papa viajante, principalmente quando ele vinha para o lado de cá do mundo.
Em abril de 2005, na morte do papa polaco universal, um sábado, estava de plantão na Rádio Bandeirantes. Dei a noticia e na sequência teve início uma cobertura de fôlego. Já tínhamos muito material pronto e entrevistas pré-agendadas. Sim, pode parecer frieza, mas jornalistas, assim como os religiosos, também se preparam para o inevitável.
Fui do anúncio da morte até a fumaça branca para Bento XVI, sempre interessado nos simbolismos e nos rituais do conclave. Foram dias intensos e gratificantes. O futebol, como sempre, servia de distração. Mas o ano não foi bom para o Palmeiras. Deu São Paulo no Paulistão e Corinthians no Brasileirão.
A vida seguiu e me pegou de surpresa na Rádio Estadão enquanto estava no ar na segunda-feira de Carnaval deste ano de 2013. Como assim, um papa que sai sem morrer? Nunca me preparei para uma experiência desse tipo. Estaria pronto para uma morte, mas não para uma renúncia.
Os últimos dias foram de muito trabalho, do jeito que gosto… Jornalismo com tensão, mas sem afobamento e gritaria. Ficamos no “plantão da fumaça” com o ótimo Jamil Chade, direto do Vaticano. Era o nosso “setorista da chaminé”. Mas no “meu horário” só deu fumaça preta.
Numa das conversas com o Jamil, ao vivo, passou um filme na minha mente e tive que tomar cuidado pra não me desconcentrar. Percebi que sempre estava trabalhando nesses momentos cruciais, mas não me queixo nem ao bispo porque adoro essa loucura.
Só que a principal e arrasadora conclusão foi outra: 1978, 2005 e agora esse 2013 de perspectivas nada animadoras. É sempre assim, em ano de troca de papa o Palmeiras não papa nada.
Já estava me acostumando com a ideia quando coisas incríveis, impressionantes e extraordinárias ocorreram a partir daquela sacada. Primeiro Francisco, primeiro jesuíta, primeiro latino-americano… Está bien, Maradona… Primeiro papa ar-ren-ti-no también. Aí, imaginei que talvez pudesse acontecer o inusitado: Palmeiras campeão em ano de conclave… Pelo menos na “minha gestão”, seria a primeira vez… Por que não? Com um pouco de reza… Melhor parar por aqui. Se eu começar a pensar muito nisso vai sair uma fumacinha verde da minha cabeça…