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Mistérios cabeludos da humanidade

Haisem Abaki

10 Novembro 2017 | 12h56

Aviso importante: a historinha de hoje ainda não começou…

– Eu me divirto com as suas crônicas. Cada uma em que você se mete, hein? E você gosta de escrever em primeira pessoa. Dá a cara pra bater mesmo!

Foi o comentário de um amigo em um encontro rápido e ele se despediu dizendo que às vezes ainda sou “do contra”. Então agora vai começar a historinha, em terceira pessoa…

No supermercado, um sujeito que, por razões desconhecidas e misteriosas estava deixando o cabelo crescer por uns quatro meses, carregava uma cestinha na mão, diante das prateleiras de xampu. O cálculo do tempo sem corte de cabelo é uma suposição de quem escreve o texto em terceira pessoa. E tasca xampu em vez de shampoo porque, como observador, acha que “o cara tem cara” de quem escreve e “fala” xampu com xis. Deve ser um nacionalista barato!


Mas barato mesmo devia ser o produto que ele procurava, já que estava olhando espumosos de cabeça mais em conta. O cabeludo lia rótulos quase encostando as embalagens no nariz pra enxergar melhor. Tinha uma mochila nas costas, talvez com óculos para perto em um estojo preto com um zíper enroscado, mas a preguiça não o deixava fazer o esforço de pegá-los. Trata-se de outra suposição, já que este texto é em terceira pessoa.

Quase enfiando a fuça em um frasco verde claro, o rapaz da vasta cabeleira lia a indicação de “tratamento restaurador e profundo da fibra capilar”. Pareceu não entender nada e devolveu o enigmático produto ao lugar de origem.

Foi para o alaranjado que prometia “cachos mais flexíveis, definidos e hidratados” e imediatamente recolocou o xampu da vez no seu cantinho. Parecia bem decidido, visivelmente, até para um observador distante, pelo fato de não ser dotado de cachinhos.

E veio o frasco marrom para “combate aos quatro sinais de ressecamento do fio: quebradiços, toque áspero, opacos e com frizz”. Deu pra perceber o nervosismo no moço que soltou um “que porra que é frizz?”, sem notar o pensamento em voz alta.

Mas logo retomou uma expressão de firmeza ao ler no azul escuro o milagre “resiste a 40 passagens de chapinha e uma hora de secador”. Se houve um “chapinha, porra!” desta vez foi pra dentro, pois não se ouviu nenhum grunhido.

Só que ficou bravo com o verde escuro onde de novo apareceu aquela palavra indecifrável na expressão “reduz o frizz por 36 horas”. Quase derrubou a embalagem no chão como se estivesse queimando as mãos.

Até que veio uma demonstração de alívio com o frasco azul claro anunciando “cabelos brilhantes, lisos e disciplinados”. Aí, procurou o condicionador com a mesma inscrição, colocou os dois na cesta e saiu feliz e saltitante. Quase isso. Antes de deixar aquele corredor pouco acolhedor pegou o celular e fotografou um por um os xampus com seus termos incompreensíveis.

Foi quando percebeu que uma moça muito simpática e sorridente havia acompanhado todas as suas ações e reações “xampuzísticas”. “Teria ela ouvido o palavrão?”, deve ter pensado o distraído consumidor capilar.

– Você escolheu bem. Esse aí é bom. Tem homem que não entende mesmo essa linguagem dos rótulos. Até tirou foto…

– É, achei engraçado. Não entendi quase nada, mas brilhantes, lisos e disciplinados até eu consigo entender…

Riram e cada um foi para o seu lado, dizendo tchau. Mas, o que será que aquele sujeito faria com os “esclarecedores” textos de xampu que tanto fotografou? Cara estranho…

Agora, voltando para a primeira pessoa, não sei o que ele faria, mas eu aproveitaria as fotos, se as tivesse em meu celular, para escrever uma historinha. E diante do espelho, penteando meus cabelos compridos, brilhantes, lisos e disciplinados, percebi que o sujeito do supermercado sequer agradeceu pela indicação da simpática moça. Espero que faça isso se reencontrá-la. Porque uma hora o xampu vai acabar, né? É só mais uma suposição da terceira pessoa aqui.