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Meus protestos de estima e consideração

Haisem Abaki

14 Junho 2013 | 18h51

Uma ouvinte escreve para a rádio me chamando de “PeTralha” e dizendo que defendo o prefeito Fernando Haddad ao falar sobre os protestos contra o aumento da tarifa do transporte público. Como de costume, li o texto na íntegra, que terminava com a frase: “Duvido que vá ler no ar”. Só não faço o registro quando há palavrões e ofensas pessoais. Ou às vezes por pura falta de tempo, diante de tantas notícias.
Outro ouvinte, comentando o mesmo assunto, me chama de “tucano” e pergunta: “Por que você protege o Alckmin?”. O jornal segue com mais torpedos, literalmente, mas enviados pelo celular. Num, eu sou cúmplice de “baderneiros”. Depois, passo a ser “adepto da truculência da polícia”.
Meu passado é sombrio mesmo… No governo FHC, ainda no tempo do fax e da pré-história do e-mail, eu era “petista”, “comunista”, “vermelho”. Uma vez me chamaram de “amiguinho de sindicalista picareta”. E também fui xingado de “ecologista”.
Na Era Lula, mudei radicalmente. Pelo conteúdo das mensagens, virei “tucanalha”, “reacionário”, “direitista”. E, apesar de pagar juros altos como todo mundo, era “defensor de banqueiros gananciosos”. Isso sem contar o fato de ter me convertido em “ruralista”, apesar de não saber a diferença entre leite de vaca e de cabra. O boi tem chifre e o bode é barbudo… É isso? Qual dos dois que é babão mesmo?
Ah, quase que a memória me trai. Houve uma campanha eleitoral em que, ao fazer comentários, era chamado de “malufista” por petistas e de “petista” por malufistas. Explicar isso requeria um tratado. Não teria me preocupado tanto, lá na década de 90 do século passado, se tivesse a capacidade de prever que, no longínquo ano de 2012, seria publicada uma foto de antigos inimigos ferozes transformados em aliados sorridentes desde criancinhas.
A maioria dos ouvintes entende o recado. Mas agora eu confesso! A minoria que vê “teoria da conspiração” em tudo está certíssima. Comunicação não é o que a gente fala, é o que as pessoas acham que a gente fala. Por isso, tento dar um desconto. Não é o que pedem na tarifa, mas é um desconto.
Pra ficar bem claro, como usuário, digo que o ônibus é ruim e caro (sou “baderneiro”), que protestar é um direito legítimo (sou “radical”), mas não concordo com manifestação em favor do transporte público que incendeia coletivos e depreda estações de metrô (sou “reaça!”) e prego punição para qualquer tipo de excesso, seja dos manifestantes (sou “truculento”) ou da polícia (sou “vagabundo”).
Será que tenho várias personalidades contraditórias? Talvez essa crise de identidade seja fruto dos protestos dos quais participei como estudante contra a ditadura (sou “subversivo”) e pela causa palestina (sou “terrorista”). Mas fiz tudo isso sem promover quebradeira (sou “cordeirinho”). Já na profissão, cobri grandes greves (sou “sindicalista”) e tive o carro de reportagem sacudido várias vezes por sindicalistas furiosos (sou “representante da mídia patronal”). E fui repórter dos caras-pintadas (sou “golpista” ou “ingênuo”, dependendo de quem analisa).
É muito simplista resumir a vida em “cara” ou “coroa”, “certo” ou “errado”, “bem” ou “mal”. Gostaria de não ter tantos “dramas de consciência” e ser como aqueles senhores sorridentes da foto. Esses sabem muito bem como “descatracalizar” uma discussão.
Mais torpedos? Não tem problema. É só escolher um dos caras que sou e mandar a mensagem. Na dúvida, também pode ser encaminhada aos cuidados de todos os “eus” aqui. “Nós” agradecemos, sempre com os mais elevados protestos de estima e consideração.