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Meu lado bom e meu lado bom

Haisem Abaki

11 Agosto 2017 | 12h51

A paternidade é um negócio que já foi muito explicado e que, ao mesmo tempo, é um troço completamente inexplicável. Pra mim, de tudo que ela proporciona, ensina e amedronta, o melhor é o abraço coletivo. Mas o tempo vai passando e…

Ela tem 18 anos e é toda engajada politicamente, sempre atenta a tudo e sem medo de opinar. Ele tem 14 e aos poucos começa a se interessar por notícias, mas ainda prefere as do futebol.

Ela tem uma vozinha fina e delicada. Ele um vozeirão que já chamava a atenção quando ainda era um choro de bebê.

Ela me abraça, me beija e anda de mãos dadas comigo na rua quando o namorado não está junto. Ele também me abraça e me beija e nossas mãos espalmadas se cumprimentam com um leve tapinha.


Ela é bem falante e desenvolta em temas políticos e comportamentais, como o respeito e a tolerância às escolhas e preferências das pessoas. Ele é mais quietão, fala apenas o essencial e aumenta um pouco o vocabulário quando os assuntos são futebol, games e youtubers.

Ela sempre puxa papo sobre algum livro, série ou filme, de Harry Potter a pensadores políticos. Ele conversa sobre fones de ouvido, aplicativos, computadores e celulares.

Ela gosta de escrever e sempre se deu bem em português, história e filosofia. Ele é mais prático e lógico e não se assusta com a matemática.

Ela estuda políticas públicas na USP, onde entrou graças a uma nota quase máxima em redação por ser viciada em leitura. Ele já pensa no ensino médio no ano que vem, algo na direção da engenharia, que pode ser mecânica, eletrônica ou mecatrônica.

Ela faz pole dance, tecido que me dá saudades do circo e toca um surdo quase maior que o próprio corpitcho na bateria da USP. Ele estuda muito, joga futebol no time da escola e, nas horas de folga, pra variar um pouco, bate uma bolinha com os amigos do condomínio.

Ela curte museus, barzinhos “alternativos” e este ano foi pela primeira vez à Parada do Orgulho LGBT. Ele é fã de super-heróis como Hulk e Homem de Ferro e já tem uma vida social mais voltada para as festinhas de aniversário da turma da escola.

Ela e ele são diferentes nos gestos, nas atitudes e nos gostos. Às vezes acontecem umas briguinhas e um diz que o outro é sempre favorecido. Mas no fim das contas se entendem e são muito parecidos na vontade de só fazer o bem a alguém.

Sim, às vezes baixa uma preguiça dupla de arrumar a cama, lavar a louça e cuidar da cachorra irmãzinha caçula. Mas isso não é nada quando ela fala ou escreve “também te amo, pai” ou quando ele fala “também” ou escreve “tb” como resposta. Cada um do seu jeito, os dois são as melhores “coisas” que fiz na vida. E aí, rola um abraço coletivo agora?