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Ideologia às moscas

Haisem Abaki

11 Março 2016 | 09h52

No quarto, vejo a menina mais linda e inteligente do mundo diante do computador, esperando o início de mais uma aula do curso online pré-vestibular. Ela ainda não escolheu a faculdade, mas diz que será “alguma coisa na área social”. Numa rápida conversa, nosso assunto foram as manifestações contra e a favor disso que está aí, cada uma com seus interesses nesse mundinho pequeno do “nós” contra “eles”.

Foi o suficiente para despertar, sem falsa modéstia, minha (ainda, por enquanto, não sei até quando) boa memória. Ela recebeu o reforço de algumas anotações que achei por acaso ao procurar documentos para declarar o meu impostão de rendinha.

Então, quase sem querer, acabei fazendo este teste rápido. Quem quiser se arriscar… Basta apontar o autor de cada uma das frases abaixo:

 

  • “Pode-se até chegar ao impeachment, a partir do que for apurado”. Quem disse isso?

(  ) Algum golpista qualquer de hoje.

(  ) Algum “aliado” fazendo ameaça velada em troca de uma boquinha.

(  ) Algum promotor querendo aparecer.

(  ) Luiz Inácio Lula da Silva, em 1999, sobre FHC, o poderoso da época.

  • “Qualquer deputado pode pedir à Mesa da Câmara a abertura de processo contra o presidente da República. Dizer que isso é golpe é falta de assunto”.

(  ) Algum defensor do quanto pior, melhor.

(  ) Algum oposicionista sem projeto.

(  ) Algum jornalista falastrão.

(  ) José Dirceu, presidente do PT, em agosto de 1999, negando o golpe.

 

  • “Onde está escrito que as pessoas não podem gritar renúncia? O presidente vai baixar uma medida provisória dizendo as palavras de ordem que podem ser ditas em manifestações públicas?”.

(  ) Algum estudioso da Língua Portuguesa.

(  ) Algum debatedor de boteco.

(  ) Algum integrante da mídia golpista.

(  ) José Genoíno, líder do PT na Câmara, em agosto de 1999.

 

  • “Ou se faz um sistema parlamentarista no Brasil ou se dá um golpe de Estado”.

(  ) Algum puxa-saco do governante de plantão.

(  ) Algum acadêmico analisando a conjuntura atual.

(  ) Algum palestrante muito bem pago.

(  ) Francisco Weffort, ministro da Cultura em 1999, ao criticar o slogan “Fora FHC”.

 

  • “É a marcha dos que têm rumo. O rumo dos que querem mudar essa política econômica causadora do desemprego e da miséria”.

(  ) Algum líder coxinha.

(  ) Algum marqueteiro esperto.

(  ) Algum perfil fake em rede social.

(  ) João Vaccari Neto, Vice-presidente Nacional da CUT, em 1999, falando sobre a Marcha dos Cem Mil, seguindo para Brasília.

 

  • “Respeitem os resultados das urnas onde o povo escolheu quem vai dirigir o País”.

(  ) A presidente atualmente de plantão.

(  ) O padrinho da presidente atualmente de plantão.

(  ) Algum ministro da atual presidente de plantão.

(  ) FHC, o presidente de plantão em 1999.

 

  • “Renúncia é um gesto de grandeza”.

(  ) Algum compositor de samba-canção.

(  ) Algum título de editorial de jornal.

(  ) Algum manifestante de panelaço.

(  ) Lula em 1999 sobre FHC e FHC agora sobre Dilma.

Molezinha essa prova. É tudo notícia velha que parece nova. Quem hoje é “nós” ontem já foi “eles”. E vice-versa. Qualquer um que não seja mal-intencionado acerta tudo e passa no exame. Vale também passar outra coisa: repelente. Tem muito mosquito se revezando nas picadas por aí. Esse é o tipo de bicho que vê teoria da conspiração em tudo e tem um forte instinto de sobrevivência. Ele adora gente limpa e, de preferência, parada. Bem parada.