As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Do concerto ao conserto

Haisem Abaki

17 Julho 2015 | 11h04

Depois de mais de 30 anos, reencontro um amigo de infância. Pena que foi num velório de alguém muito querido por nós. Apesar da ocasião, o papo rendeu, mas do lado de fora, claro. Mais de quatro horas de lembranças do primário e do ginásio, que é como chamam hoje o primeiro grau. Passamos também por política, futebol e “casamento nunca mais”. A frase foi do meu colega de escola, tá?

De tudo que conversamos, o que mais me marcou foi uma recordação dele que já tinha fugido da minha memória. “Eu testemunhei o primeiro programa de Rádio que você fez”. Tínhamos 10 ou 11 anos, o trabalho era em dupla, não sabemos mais qual foi o assunto e gravamos tudo numa fita cassete. Molecada mais nova, não vou explicar que troço é esse. Digitem “fita cassete” ou “fita K7” numa rápida “gugolzada”.

Voltei pra casa pensando que, naquela época, já tinha o desejo de trabalhar no Rádio. Mas também alimentava outro sonho: tocar algum instrumento. De preferência, guitarra. Ficava me imaginando em festivais de música, mandando brasa e sendo aplaudido pela multidão. Pra encurtar a história, lá por 1980 (turma mais jovem, 1980 é um ano que veio depois de 1979 e antes de 1981), reduzi drasticamente minhas expectativas artísticas. Comprei uma flauta doce. Outra tortura. Não consegui nada. Apenas sons desconexos. Incompetência total. Vi que nunca na vida seria capaz de fazer um concerto e decidi me concentrar só no Rádio.

A lembrança da minha falta de dom musical me deixou entediado. Quando isso acontece, me flagro pensando em tudo ao mesmo tempo, inclusive nada. São momentos em que sempre faço coisas bobas, como se estivesse à procura de sinais. Abro algum livro aleatoriamente e tento “decifrar a mensagem”. Pode ser Bíblia, Corão, Dicionário… E sempre interpreto o que leio como um recado diretamente pra mim.

Mas dessa vez entrei num site, fechei os olhos e abri pra ver a primeira palavra que apareceria. Estava escrito “Gêmeos”. Caraca, meu signo! O horóscopo me mandava tomar cuidado com a impulsividade e pensar antes de falar porque Mercúrio e Marte estavam em oposição a Plutão. Depois, a orientação era pra me manter firme nos meus sonhos e “ajudar e dar colo” a quem me ajudou um dia.

Não entendi direito. Então, fui correr. Acionei o “tocador de música” e entrou “Fix You”, do Coldplay. Terminou e começou a tocar de novo. E mais uma vez. Vi que tinha apertado “o botão” de repetição sem querer. Um cara tão inábil com os dedos não poderia ser guitarrista mesmo. Deixei rolar e só então fui prestar atenção na letra de “Consertar Você”.

Martelou na cabeça aquela parte que diz mais ou menos: “E as lágrimas escorrem pelo seu rosto/Quando você perde algo que não pode substituir/Quando você ama alguém, mas isso se desperdiça/Poderia ser pior?”. E depois: “Luzes vão te guiar para casa/E aquecer seus ossos/E eu vou tentar consertar você.”.

Logo me veio à cabeça a imagem de alguém muito especial. Alguém que “me consertou” nos piores momentos, juntando os cacos delicadamente. Alguém a quem, por mais que eu agradeça, será insuficiente. Alguém a quem eu gostaria de dedicar um solo de guitarra ou uma música suave na flauta com meus próprios dedos. Mas isso é impossível… Não posso retribuir pelo conserto com um concerto. Além de ser uma pessoa linda e doce, ainda é sortuda por não ser obrigada a  me ouvir. Faz de conta que esse textinho é uma música. Melhor não me arriscar tocando nada. Assim ela não vai se arrepender de ter me consertado. Ô Coldplay, resolve isso aí pra mim, pô!