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Desabamos todos

Haisem Abaki

04 Maio 2018 | 11h16

Em trinta e dois anos de profissão, penso que dá pra ficar mais “cascudo” e não me importar tanto com comentários e ofensas de quem não me conhece e tira conclusões imutáveis sobre minhas preferências e dá uma sentença definitiva sobre qual é a minha ideologia, sem direito a recursos até a “nãoseiquantésima” instância.

Foi o que fiz com alguém que me atacou simplesmente por eu ter me referido aos eleitores de um determinado candidato como “seguidores” dele. Disse o inconformado militante de rede antissocial que eu estava fazendo um “discurso de esquerdopata”. Respondi com calma, mas sem alimentar uma discussão inútil. E assunto encerrado. Ele continua lá, julgando e condenando, e eu aqui, no banco dos réus.

Até aí, tudo bem, faz parte do jogo da profissão. Incomoda esse exagero e o fanatismo dos dois lados que só gritam e não se ouvem no meio de tanta barulheira, mas é preciso ir em frente sem se achar dono da verdade e tentando entender as motivações dos seguidores (eita palavrinha profana) dos candidatos a salvador da pátria (com p minúsculo mesmo).

Só que aí um prédio vem abaixo. Um prédio com gente dentro. Um prédio com homens, mulheres e crianças. Um prédio da União, do governo desta nação. Um prédio abandonado e depois ocupado por quem não tinha onde morar.

E começa uma intensa, verborrágica e superficial discussão “política”. Gente tirando suas conclusões de conveniência a partir das próprias convicções inabaláveis. Gente berrando no terraço das redes antissociais e voltando para o aconchego do apartamento. Gente se esgoelando nos grupos de família, de amigos, do trabalho, da faculdade…

A culpa é do poder público que não fez nada! A culpa é dos golpistas! A culpa é dos movimentos sociais que insuflam esses pobres coitados e ganham dinheiro com a miséria alheia! A culpa é de uma facção criminosa que tomou conta das invasões! A culpa é do sujeito que invadiu e sabia que estava correndo riscos! Invasor é tudo bandido! Cada um berrando seus próprios interesses cheios de pontos de exclamação.

Um prédio caiu e tem gente soterrada lá. E é isso que deveria importar. Ainda que fossem todos bandidos, não seria motivo para um natural sentimento de solidariedade ser substituído pela alegria de sempre ter a razão do “eu não falei?” e do “eu já sabia”.

Quando uma tragédia dessa magnitude deixa em lados opostos quem deveria estar unido, no mínimo, por um sentimento de compaixão, é porque todos nós desabamos.

Ia terminar assim este texto, muito mais um desabafo do que uma crônica. Mas li uma manifestação de esperança do amigo Júlio Maria. O filho dele, saindo para ir à escola, carregava uma sacola com um cobertor. E perguntou onde fica o Largo do Paiçandu. Ainda respiramos sob os escombros.