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Corro, logo existo!

Haisem Abaki

31 Julho 2015 | 10h15

A pergunta que ouvi durante uma sessão de terapia me acompanhou nos 12 quilômetros de corrida. Era justamente sobre meus pensamentos enquanto corro ouvindo música. Mais precisamente “em quem” penso. Minha resposta foi… Ah, alguém tá curioso? Então espera um pouco pra eu pensar se é o caso de responder aqui. Primeiro preciso justificar esse pobre título pretensiosamente cartesiano.

Na verdade, pensando bem, com o perdão de tanta repetição pensativa e pensante, descobri que o pensamento que me toma vai além de uma pessoa muito pensável para mim e que virou dona do meu pensar.

Pra quem já tá pensando que papo doido é esse, explico: a questão não é somente “quem”, mas principalmente “quando”. Hoje eu sei que parei no tempo por quase oito anos, depois que meu pai se foi de forma trágica. A dor foi paralisante, daquelas que fazem a vida passar sem que se perceba.

Algo parecido com a música “Não Vou Me Adaptar”, com o Nando Reis e o Arnaldo Antunes. “Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia/Eu não encho mais a casa de alegria/Os anos se passaram enquanto eu dormia/E quem eu queria bem me esquecia”. É bem por aí, tirando o primeiro verso, já que a corrida fez tudo que é botão fechar.

O tempo parou pra mim em 11 de setembro de 2007. Foi também o dia em que comecei a ser “forte” para “proteger” a esposa, a nora e, acima de tudo, os netos daquele sujeito iluminado, cheio de fé e sempre bem-humorado que foi embora de repente.

A principal providência foi me fechar. Uma tranca no coração, outra na alma e, a maior de todas, na vida. Tudo ali, bem escondido, isolado, inviolável. De casa para o trabalho, do trabalho pra casa. Poucas viagens, festas e visitas ou saídas com amigos. Menos paixão pelo Palmeiras também, se bem que o time ficou um longo período sem merecer.

Resistência e teimosia quase botando tudo a perder até que o fiapo que me restava de intuição me fez bater na porta certa. Depois de sete meses de terapia e não sei quantos quilômetros de corrida, consegui avançar um pouco no tempo. Não dá pra resolver tudo de uma vez, mas meus pensamentos já estão agora por volta de 2011, talvez 2012, tentando entender ações, gestos, olhares, palavras e silêncios.

Não penso em tempo perdido porque isso é pura perda de tempo. Mas, como diz alguém especial, sempre me socorrendo e me consertando, é hora de “me permitir” certas coisas, venham de onde vierem. Amorterapia, filhosterapia, cachorroterapia, amizadeterapia, trabalhoterapia, viagemterapia, musicaterapia, cinematerapia, botecoterapia, baladaterapia, risadaterapia, besteiraterapia, palmeirasterapia… E, claro, muita corridaterapia e pensamentoterapia naqueles olhos que me acalmam. Voltei a existir. E deixaavidarolarterapia!