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Comigo é no braço

Haisem Abaki

09 Março 2018 | 14h25

Saí da academia depois de quase uma hora de puxamento de ferro e quase me ferrei no supermercado. O início do texto nada tem a ver com o que virá a seguir. Foi só um jeito “sutil” e um tiquinho exibicionista de dizer que agora eu sou “acadêmico”. Fui lá pra fortalecer os joelhos e parar de sentir dor nas corridas de rua. Tudo em obediência ao médico. Ele mandou e um ano depois eu já estava cumprindo espontaneamente a obrigação.

Já ganhei um tempinho com essas linhas iniciais e deixo de lado minha condição de “quase” musculoso para retomar o tema que não é minha silhueta nem meu ego atlético. Saí de lá com uma garrafinha de água “personalizada”. É uma normal, daquela de 510 ml. Só tirei o rótulo para torná-la “exclusiva” e, numa genial sacada, contribuir com o meio ambiente. Saio com ela vazia de casa e faço os abastecimentos no bebedouro da academia durante os treinos.

O endereço do meu “culto ao corpo” fica no térreo de um hipermercado que já frequentei mais, até a inauguração de outro, bem mais perto de casa. Mas, como estava por lá mesmo, ficando cada vez mais “saradão”, resolvi subir a escada rolante. Só queria ver o preço do leite porque já tinha uma noção dos valores na concorrência vizinha.

Mas uma moça da segurança me lançou um olhar fulminante logo na minha entrada triunfal e suada depois de tanto exercício físico. Pela direção parecia ser o reconhecimento e a definitiva consagração do meu bíceps! Ou do meu tríceps! Ou do bíceps e do tríceps! Mas me enganei. Era um pouco mais pra baixo. A vazia garrafinha “personalizada” é que estava na alça de mira da vigilante funcionária.

Ela fez um gesto apontando o dedo indicador para minha companheira de treinos, mas foi simpática, sorriu e foi gentil ao usar um diminutivozinho.

– Por favor, você me deixa colocar essa etiquetinha?

– Claro! Pedindo com carinho assim eu deixo…

O sorriso se transformou em gargalhada, mas ela tascou o adesivo sem dó na minha “miga”, que até se contraiu um pouco com aquele grudento impacto. E caminhando à procura do setor de leites li a inscrição “Prevenção de Perdas”. Bem que eu tinha pensado mesmo em entrar lá, pegar uma água mineral gelada, beber tudo, tirar o rótulo e sair numa boa. Seria um plano perfeito se não tivesse sido descoberto por tão eficiente sistema de rastreamento tecnológico de caras suados em atitude suspeita diante de tantas tentações alimentares.

Conformado, fui apenas ver o preço do leite mesmo e constatei que estava bem mais caro na comparação com o do hipermercado mais perto do meu ninho leiteiro. Que pena! Tudo o que eu queria era pegar umas caixas pra carregar com meus braços fortes, mas saí com minha garrafinha de estimação vazia. Pelo menos a simpática funcionária continuou a ser uma simpática funcionária.

– Não encontrou o que queria?

– Encontrei, sim. Mas tá um pouquinho caro, viu?

– Ah, é?

– É, achei melhor não comprar. Prevenção de perdas, sabe?

Ouvi de novo uma gostosa gargalhada, devolvi a etiqueta e me despedi.

Ah, queridos bíceps e tríceps, não foi desta vez que desfilei para exibir a força de vocês. Mas foi por uma boa causa, pra preservar o suado dinheiro, conquistado com braço forte.