As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Choque de ficção

Haisem Abaki

03 Junho 2016 | 08h17

Sujeito viciado em trabalho vira um chato (mais chato ainda) quando é obrigado a se conformar com um repouso forçado por ordem médica. O lado bom de uma folga pós-operatória é ficar mais perto dos filhos. O ruim é que eles têm escola, lição de casa, prova, cursinho pré-vestibular, treino de futebol, videogame…

Acompanhar o noticiário também não ajuda muito. Só aumenta a coceira pra entrar em campo de novo. É como estar em abstinência do porre diário de uma profissão que apaixona e vicia, mesmo com seus enganos, exageros e sendo alvo de agressões verbais e até físicas de fanáticos seletivos em suas indignações.

Cansado de descansar, resolvi ouvir a voz da experiência da minha menina de 17 anos, que se prepara para “alguma coisa na área de Humanas”. Tentei me desligar de (quase) tudo, partir para uma pegada de entretenimento e dormir um pouco mais, sem o compromisso de acordar antes do galo.

Por recomendação dela, mergulhei numa história de poder e intrigas da qual já tinha ouvido falar, mas não encontrava o tal tempo que nos últimos dias passou a sobrar. A mocinha me deu algumas boas dicas, com todo o cuidado para que cada pista não virasse um “spoiler”. A molecada hoje adora essa palavra. Eu simplesmente dizia “estraga-prazeres” de quem saía do cinema comentando o final do filme diante da fila da sessão seguinte.

O enredo me prendeu como se fosse operação da Policia Federal e fui sendo conduzido coercitivamente um episódio após o outro. Vi trinta em uma semana e só não assisto neste momento o capítulo 31 porque estou aqui a escrever. O papel principal é o de um político muito esperto, manipulador e mau-caráter. Será que devo ser tão detalhista assim na descrição? Não é muita redundância? Então, reformulando, o papel principal é o de um político.

E lá vou eu com meu “spoiler” também… O cara é um deputado cheio das armações. Caramba, deixa eu voltar para a capacidade de síntese. O cara é um deputado. Lidera um grande partido e é muito ambicioso. Mexe os pauzinhos daqui e dali, usa as pessoas e chega a vice-presidente de um governo fraco, hesitante e que enfrenta uma grave crise econômica.

Em paralelo, a história mostra um punhado de gente interesseira. Além dos políticos do “nós” e do “eles”, que às vezes fingem brigar e fazem acordos na moita, aparecem assessores, empresários, lobistas, jornalistas pretensiosos, manifestantes “espontâneos”, sindicalistas, terroristas, hackers, agentes, policiais, juízes, procuradores, promotores e advogados muito bem pagos para defender “inocentes” acusados de corrupção. Enfim, pelo menos por enquanto, não percebi ninguém com boas intenções. Tem também impeachment e renúncia. E adivinha quem assume a Presidência? Não conto nem que me ofereçam uma delação premiada. Mas posso dizer que os poderosos de plantão discutem gastos sociais, o desemprego de 10 milhões de trabalhadores, reforma da Previdência, doações ilegais a partidos e grandes jogadas marqueteiras.

Mais uma licença para um “spoilerzinho” de leve sem estragar a trama. Não ergueram, até onde pude ver, cartazes de “fica” e de “tchau” para o “querido”. Só que ninguém fala em “golpe”, apesar de ser. E o bandidão, mesmo morando na Casa Branca, faz com as próprias mãos o sanduichão de pasta de amendoim, sem nenhum serviçal por perto.

Muito boa essa “House of Cards”. Principalmente quando o figurão olha de lado para o público e confessa todas as sacanagens. Faz a gente ir para um mundo de “ficção política” inimaginável deste lado do planeta. Algo muito distante de nós. Ainda bem que temos a graça de viver aqui neeeste país. Um país do baralho! É o “spoiler” diário de uma série “inédita”. E muito mais real. Real, dólar, euro…