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Carta a uma menina cheia de vida

Haisem Abaki

01 Dezembro 2017 | 14h15

Está chegando uma daquelas datas anuais que me deixam com suor nos olhos. É só entrar dezembro para o fenômeno se repetir. Nem preciso esperar o quarto dia do mês pra saber que vai acontecer de novo. Já vou para 19 anos com essa visão mais umedecida da vida.

Os sintomas são sempre os mesmos. Começam com uma coceira nos dedos. Na verdade só nos dois indicadores, os únicos que uso pra digitar no computador. Os outros oito ficaram lá em 1976, quando eu tinha 12 anos e aprendi datilografia pra ter “um futuro melhor”.

A coceira vem acompanhada de um monte de pensamentos e lembranças. E aí minha imaginação começa a correr tão solta e desconexa que às vezes até me perco e não sei mais por onde comecei e como cheguei a tal ponto de reflexão com batimentos cardíacos acelerados.

O resultado de tudo isso é a vontade de escrever uma crônica pra você, como se fosse uma carta, sabe? Claro que sabe! Afinal, eu sou repetitivo desde os seus 10 anos, a sua primeira idade redonda. Mas não faço isso por me sentir obrigado. Faço apenas porque a coceira e as ideias me deixam ao mesmo tempo agitado e calmo, feliz e preocupado, orgulhoso de você e desconfiado do mundo lá fora. Pode parecer contraditório, mas tudo isso se mistura nos sentimentos de pai babão e bobão.


Mas e aí, escrever o quê? Já não escrevi tudo? Já não disse tudo? Já não desejei que você tenha tudo de bom na vida? Então, pronto, né? Já cumpri a minha parte paterna e agora é com você. Só que não é assim. Por mais que eu tenha feito, dito e sentido tudo o que você já sabe isso nunca vai mudar em mim. Então, esteja sempre preparada para minhas repetidas repetições repetitivas enquanto eu viver.

Mas este ano teve alguma coisa diferente. Talvez seja porque a gente está se vendo menos, por você estar no primeiro ano da faculdade, por ter começado a tocar surdo na bateria e por você já estar pensando em morar mais perto desse mundo que está descobrindo do que de mim.

Bateu uma saudade que está guardada nas gavetas logo abaixo da TV lá na sala. Até falei isso pro seu irmão, já que ele também faz parte dessa imensa saudade. Lá estão vocês dois, mamando, se lambuzando de papinha, trocando fraldas, no berço, no andador, no carrinho verde, tomando banho na banheirinha, sentados no peniquinho, pronunciando as primeiras palavras de um jeito lindamente “elado”, começando a andar, caindo, levantando, correndo, sorrindo, descobrindo a vida…

Tudo isso está lá, guardado em fitas e mais fitas gravadas em uma câmera que corri pra comprar nas Casas Bahia quando você estava pra nascer. Mas agora quero correr pra digitalizar todo o material para que nenhum momento feliz fique perdido e empoeirado. E assim minhas imagens tremidas de cinepaigrafista vão servir pra mostrar que você, desde sempre e para sempre, foi, é e será uma combinação perfeita com o nome que tem. Vivian, uma pessoa cheia de vida! E lá vem mais suor nos olhos…